sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A Gema estava na Stradivarius a ver casacos de pele a 19,90€ e ouviu assim:

"Acho que vou começar a engatar gajas nas bibliotecas. Assim tenho mais chances de encontrar alguém interessante".

Era um rapaz que não teria mais de 18 anos, com um tom de voz descontraído, mas sério. Eles andam a ficar espertos cada vez mais novos. Apesar de ser a coisa mais fofa ouvida nos últimos tempos, é também ligeiramente assustadora.

E nós, minha amiga, temos de começar a ir socializar para congressos médicos. Lá é que estão os homens ricos interessantes, que nos podem dar muito dinheiro amor e um futuro cheio de viagens e sapatos sorrisos e carinho.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

clap clap clap, carga de trabalhos

Não resisto a pôr aqui a comunicação que fez o www.cargadetrabalhos.net.

"
estágios no carga de trabalhos

Após bastante consideração, o Carga de Trabalhos decidiu mudar a sua política de publicação de anúncios, passando a rejeitar todos os anúncios nos quais figurem propostas que, segundo o Código do Trabalho em vigor, possam ser consideradas ilegais ou suspeitas.

Ainda que acreditemos na liberdade e responsabilidade individual dos cidadãos e na boa conduta e responsabilidade social das empresas e empresários portugueses, ao longo dos últimos tempos temos detectado um número crescente de ofertas que indiciam algum desconhecimento do direito do trabalho ou das normas do Instituto de Emprego e Formação Profissional e que têm valido ao Carga de Trabalhos várias reclamações e até alguma desconfiança, que coloca em causa o nosso trabalho em prol dos profissionais da área da comunicação.

Assim, lembramos que à luz do Código do Trabalho e de acordo com a opinião de vários especialistas na matéria, entre os quais o Dr. Garcia Pereira, os chamados estágios não-remunerados ou estágios com "ajudas de custo" são claramente ilegais, por constituírem, segundo a legislação, um verdadeiro e próprio Contrato de Trabalho.

Legalmente, todas as relações laborais nas quais exista local e horário de trabalho e em que o trabalhador reporte directamente a uma hierarquia/chefia são automaticamente consideradas contratos de trabalho e são dessa forma obrigados a cumprir vários requisitos legais, como a remuneração no valor igual ou superior ao Salário Mínimo Nacional em vigor, pagamento de Segurança Social e Imposto sobre o Rendimento Singular relativo ao trabalhador, além de 13º e 14º mês (subsídio de férias e de Natal). Lembramos também que para existir um Contrato de Trabalho Sem Termo (ou seja, efectivo ou permanente), não é obrigatório um documento assinado, sendo que esse existe apenas com acordo verbal das duas partes.

Da mesma forma, uma relação laboral com base nestes pressuposto nunca poderá ser remunerada através de Recibos Verdes, visto que estes se destinam à Prestação de Serviços por profissionais liberais ou trabalhadores por conta própria, que trabalham com autonomia, definem o seu próprio local e horário de trabalho, estando apenas obrigados a cumprir os prazos e condições fixados pela empresa, a qual, neste caso, é legalmente considerada cliente e não entidade empregadora.

Alertamos ainda que os indivíduos que, no âmbito de uma situação de Contrato de Trabalho, sejam remunerados com Recibos Verdes, podem a qualquer momento fazer denúncia da sua situação à Autoridade para as Condições de Trabalho, que poderá proceder à inspecção na empresa denunciada, podendo, além de obrigar ao pagamento de todas as contribuições e subsídios devidos ao trabalhador, autuar a entidade empregadora por incumprimento do Código do Trabalho.

[...]

Recordamos também que os estágios denominados curriculares, não representando legalmente uma relação laboral mas sim uma etapa do processo formativo, só podem ser realizados mediante protocolo assinado entre a entidade empregadora e a entidade formadora, que designe um coordenador de estágio para acompanhar o formando. Qualquer estágio não protocolado não pode ser considerado curricular, constituindo mais uma vez uma situação de Contrato de Trabalho e tendo de respeitar os requisitos acima enunciados.

Por último, esclarecemos que os anúncios de emprego não podem discriminar os candidatos, seja pela idade, sexo, raça ou outros, podendo apenas diferenciar em relação à qualificação e conhecimentos necessários ou desejados ao desempenho da função anunciada.

O Carga de Trabalhos recusará, sem necessidade de qualquer outro esclarecimento, todos os anúncios que não respeitem um ou mais dos pontos atrás referidos, recusando qualquer responsabilidade factual ou moral em relação a eventuais incumprimentos por parte das entidades empregadoras.

Com os melhores cumprimentos,
Carga de Trabalhos

"

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Olha que te ponho pimenta na língua, Zé

Quem me conhece sabe que sou queirosiana na mão direita e saramaguiana na mão esquerda. Depois do Eça, José Saramago foi a melhor coisa que aconteceu à literatura portuguesa, perdão, à literatura do último século. Isto não significa que goste muito do senhor Zé (que, a bem dizer, não conheço de parte nenhuma) ou que tudo o que ele diga seja lei. Na verdade, muitas vezes não concordo com o que lhe sai da boca. Mas daí a achar que ele não deve dizer o que pensa vai um grande passo...

Vasco Pulido Valente escreveu isto, como de costume com a sua caneta de ponta bífida.

Bom...

"Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia"

O Saramago tem tanta autoridade para opinar sobre a Bíblia como o Vasco Pulido Valente sobre o Saramago, o tratamento que lhe deu a comunicação social, as escolhas do júri do prémio Nobel e dos milhares de leitores 'saramaguianos'. Esse é um argumento vazio para mim.


"Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara"

Este tipo de observações sim é uma autêntica saloiada. E o Vasquinho que se cuide... já está ali a roçar os 70, é bom aproveitar a lucidez que lhe resta, a qual, segundo o seu próprio raciocínio, já se vai esvaindo.


Numa coisa concordo com ele, embora não pelas mesmas razões: não se desculpa que o país, supostamente laico e livre há muitos anos, se escandalize tanto com as opiniões do Saramago. No entanto, o que eu entendo é que o escândalo não vem exactamente da sua opinião (que já ninguém deve saber repetir), mas sim do facto de ele se atrever a criticar a Bíblia, com todo o excesso a que tem direito. Podemos ser maioritariamente cristãos (eu incluo-me no saco), mas isso não nos dá o direito de acharmos que a Bíblia é sagrada para todos. Na verdade, para alguns é só um livro. Quando alguém critica o Corão ou o Cadomblé ou a IURD ou mesmo o Professor Bambo, intocáveis para tantos, não é esta escandaleira toda... Isso é, para mim, o mais perigoso e um sinal de que ainda há muita estrada para andar. Se sentirem estranhos calafrios pela espinha acima, suspeitem: o fantasma de Natais passados paira por aí.

domingo, 25 de outubro de 2009

Voltámos


Podia escrever um post intitulado "As melhores férias da minha vida" ou "Viagem espiritual" ou "O Ovo dentro de um Coco-Taxi" ou "Como Cuba fez de nós pessoas diferentes" ou "Encontrar almas gémeas do outro lado do Atlântico" ou "Carícia com o resultado de uma chapada na cara", mas não vou fazer nada disso.

Se um dia conseguir transmitir por palavras o que aconteceu, morro considerando-me escritora.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Outubro de 2010?

No ano passado, por esta altura, não trovejou assim.

Nos primeiros dias de Outubro do ano passado, tentámos fazer uma coisa. E quase poderia jurar (memória, não me falhes agora, que o que aí vem é importante demais para ser mentira) que houve beijos a sério e abraços a sério e saudades a sério. Brilho no olhar e admiração mútua. Vontade de construir, de andar para a frente. Intenções declaradas, borboletas na barriga. Quase-paixão, por uns dias? Não resultou.

Este ano, nos primeiros dias de Outubro, tentámos fazer uma coisa. Surgiu do nada. Nem palavras bonitas nem borboletas nem olhos brilhantes (mas ainda muita admiração da minha parte, carinho da tua. Saudades?). Emendo: tu tentaste. E ainda não sei se me arrependo de não ter tentado. Não resultou.

No ano passado, por esta altura, não trovejou assim. Trovejou muito mais. Também choveu mais e fez mais sol e sentiu-se mais vento. Num momento ou dois, houve tanto frio que até nevou.

Esta tempestade é menor. Um ou outro trovão, tão espaçados, que não abafavam o silêncio que vem da tua casa. Uma chuvinha pouca. Mal se sente na janela.

Mas, que coisa!, não me deixam cair em sono profundo.

Como serão os primeiros dias de Outubro de 2010?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Lições do dia

1. Não exijas de ti mesma a perfeição. Senão apenas a frustração te espera.

2. Não queiras controlar tudo à tua volta. Controla o teu controlo para que não se torne obsessivo.

3. Quando pensares nas coisas que não tens, põe no outro prato da balança as coisas que tens. Verás que afinal o prato negativo não toca no chão e a tua vida não é assim tão má.

4. As pessoas não pensam todas como tu; não as podes medir por ti. Muitas vezes não correspondem às tuas expectativas. Porque tu agirias de certa maneira, não quer dizer que todos façam igual; porque tu serias incapaz de uma crueldade, não significa que outros não sejam.

5. És bonita. Por fora, por dentro e na cabeça. Despertas e vais despertar interesse em toda a espécie de predadores.

6. As pessoas não são todas boas.

7. Não te entregues com a alma toda: vai devagar, analisa, critica, não ignores os sinais. Abre bem os olhos.

8. Zanga-te.

9. Anda sempre com um preservativo na carteira.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009



Esta já passou por aqui, mas hoje tinha de voltar. Não só porque logo à noite há concerto das meninas na Aula Magna, mas porque o tempo frio parece estar a chegar. E nós sabemos como pode ser complicado viver dias cinzentos. Respiremos fundo e avancemos: havemos de atravessar este Inverno sãs e salvas, mais uma vez.

We both know it's going to be another long winter...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Esplendor



Caía uma chuva fina
Em forma de confissão
E eu, solidão
Sou como a folha de outono
Que sem dono
Navegando chega aqui

Pra lhe dizer que o abandono
Já vai chegando ao fim
E eu, solidão
Só falta agora o teu sorriso
Um aviso
Que a luz do sol está por vir

E se você me vir vagando
Sem razão
Não vá pensar que o desengano
Mora no meu coração
Há muito tempo já se foi
A estação que vem depois
Descortina todo o esplendor

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Queria sofrer de amor. Pôr musicas tristes a tocar e chorar, chorar...

Para quê cansar a caneta quando alguém já o fez? E tão bem.
Fiquem com Miguel Esteves Cardoso e o seu "Elogio do amor".


“Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e
da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”

MEC

terça-feira, 22 de setembro de 2009

in



- Não compreendo a vingança - disse ele -, nunca a senti. E não escrevo sobre ela.

- E Emma Zunz?
- Sim, mas é o único caso. Mas a história foi-me dada e eu nem acho que seja muito boa.

- Então, não aprova a vingança por algo que tenha sido feito contra si?
- A vingança não altera o que foi feito. Nem o perdão. Vingança e perdão são irrelevantes.
- Que se pode fazer, então?
- Esquecer - disse Borges -, isso é tudo quanto se pode fazer. Quando me fazem mal, finjo que aconteceu há muito tempo e a outra pessoa qualquer.
- E funciona?
- Mais ou menos - mostrou os seus dentes amarelos -, mais para menos do que para mais.



Eu sabia que havia uma razão para ignorar o sentimento de expectativa defraudada e não desistir deste livro. O remate da viagem está a ser todo muito bom (guardou o melhor para o fim, não foi, senhor Theroux?), mas só esta passagem já valeria a pena a persistência.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Luz ao fundo de mim

Foto de Warren du Preez & Nick Thornton-Jones


Quando alguém te diz "escreves bem, de certeza" sem nunca ter lido nada teu, sabes que tens qualquer coisa em ti.

Pode não ser único, extraordinário, impressionante, mas assegura-te de que não és uma pessoa baça, lisa, vazia. Sabes que, num dia bom, debaixo da luz certa, brilhas.

Brilhas.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Who the fuck is David Motta?

Ele chegou vestido de preto (um olhar mais atento apercebe-se de que a roupa é invulgar) e chinelos. Disse: "já venho maquilhado. Só preciso é de calçar os sapatos e de me arranjar". Sorriso aberto, um tom de voz educado - cumprimentou quem com ele se cruzou e não olhou ninguém de alto a baixo. Sentou-se no sofá da sala de produção, disse "o meu cabelo deve estar terrível", calçou uns sapatos de mulher, pretos e de vertiginoso salto agulha. Concentrado em si, calçou as burlescas luvas pretas rendadas e colocou, um por um, escolhidos, e bem a propósito, a dedo, vários anéis. Bastava olhar de relance - o brilho mostrava que não eram bijuteria plástica.

Chegaram os outros, estes já todos compostos. Filipe, rapaz moreno e alto, bonito, apesar do ar ainda adolescente (ou talvez por isso mesmo) vinha de calças amarelas e a mesma simpatia e educação. Coco, portuguesa e irlandesa, de vestido preto, curto a deixar ver as pernas de quem foi modelo, enfeitado a disfarçar a barriga de quem já não é. Ela sim, adolescente, com brilho nos olhos, sorrisos despropositados, o cabelo muito longo e muito loiro, sempre despenteado. Havia mais: a menina morena de cabelo inclinado para um dos lados, com duas cruzes de tape preta sobre os mamilos, muitos colares de pérolas e um casaquinho preto que tirou só quando estava fora do ar ("se a minha mãe me visse assim"); um rapaz muito magro e alto, de fato prateado, tão parecido àquele das paredes ("mas o Marco Horácio compra os dele em Londres; nós compramos nos chineses") e uma máscara que, descobre-se mais tarde, esconde uma cara bonita; perucas, óculos grandes e extravagantes, um leque de penas que estive quase a levar para casa, saltos altos em pés de homem.

Entraram no estúdio, sentaram-se no sofá branco e falaram. Do grupo que criaram e a quem chamaram MAD Subculture. Das festas loucas que organizam. Das festas mil vezes mais loucas a que vão em Londres, Nova Iorque, etc. Do merchandising que criaram para o grupo. Fala o David de um estilista português que ninguém conhece. Fala o Filipe do prémio que ganhou, do mestrado que quer tirar. Fala a Coco, misturando inglês e português, do castigo que os pais lhe impuseram - ficar com eles na Madeira - e apela a que a deixem voltar para Lisboa. Desvendam que querem animar Lisboa, incentivar as pessoas a vestir roupas loucas, criar uma subcultura inspirada no exagero, na extravagância.

Em volta, percorrendo o estúdio, ouve-se: "olha-me aquele paneleiro; olha-me a gaja que não tem cuecas de certeza; olha-me aquele atrasado mental de saltos altos". Como ouve David Motta de cada vez que sai à rua vestido de forma extravagante - normalmente com coisas como usam as estrelas que tanto admiramos "lá fora". E eu (e, felizmente, não só eu), a espumar de raiva com tanta mente fechada, com tanto pensamento parado no século XIV, com tanta pedra em vez de cérebro.



Os miúdos organizam festas, criam blogues, criam roupa - fútil, dizem. Pergunto: e vocês, aí sentados, vocês gritam 'paneleiro' a qualquer cor mais viva, criam o quê? Raízes no sofá? Quantos miúdos daquela idade, agarrados ao Hi5 e à playstation, fazem coisas saídas das suas cabeças, sejam elas o que forem?

Pensamos no Andy Warhol na sua Factory e quantas vezes ele ouviu "olha-me este panisgas a pintar e filmar merdas que não interessam a ninguém! vai mas é trabalhar!". Mas a verdade é que são estas pessoas que ficam na memória - as pessoas diferentes. Ainda vivemos num mundinho cinzento ou, para ser mais exacta, num país cinzento, em que se quer que toda a gente vista de jeans, que as meninas só se ponham em cima de saltos em ocasiões especiais, que se seja heterossexual, que se tenha um trabalho normal, que toda a gente se case e tenha filhos, que só se saia à noite até uma certa idade - principalmente, que não se dê nas vistas.

Eu chamar-lhe-ia mente fechada.

Perguntaram aos "burrinhos, fúteis, maricas" David, ao Filipe e à Coco: "como é que uma pessoa tem de se vestir para ir a uma festa vossa? por exemplo, a Dona Helena podia entrar?" [para quem não sabe, a Dona Helena é uma senhora da limpeza, já entradota, que anda de bata verde]. Ao que eles responderam: "porque não? o que nós defendemos é que cada pessoa vista o que quer, calce o que quer, seja como quer".

http://www.madsubculture.com/
http://escarradordedavidmotta.blogspot.com/

domingo, 23 de agosto de 2009

Let it die



...and get out of my mind
We don't see eye to eye
Or hear ear to ear

Don't you wish that we could forget that kiss ?
And see this for what it is
That we're not in love

The saddest part of a broken heart
Isn't the ending so much as the start

It was hard to tell just how I felt
To not recognize myself
I started to fade away

And after all it won't take long to fall in love
Now I know what I don't want
I learned that with you

The saddest part of a broken heart
Isn't the ending so much as the start
The tragedy starts from the very first spark
Losing your mind for the sake of your heart
The saddest part of a broken heart
Isn't the ending so much as the start

sábado, 1 de agosto de 2009

25 anos e 4 livros

1. "I am alone in the dark, turning the world around in my head as I struggle through another bout of insomnia"

Foi mais uma noite em que mal dormi. Mas daquela vez não me importei. Estava a começar o dia do meu aniversário e não era o cansaço que me impediria de festejar, com a família, os amigos, os novos e tão simpáticos colegas e comigo mesma, afinal quem faz anos sou eu. Andei zonza o dia todo, mas sorri sempre e disse obrigada a quem me beijava e abraçava. À noite, recebi todos em casa de braços abertos, risos e saltos altos.


2. "Eu, Mwanito, o afinador de silêncios"

Contudo, eu, Marta, não gosto especialmente de silêncios. Festa de anos é barulhenta, com barulho de conversar, de rir, de cantar, de chorar de bebé. É assim desde sempre. Gosto dos Parabéns cantados muito afinados, como só os Lopes sabem fazer, e das palmas e dos gritos, todos afinados numa melodia complexa, inesperada, de notas surpreendentes. Parece uma confusão a quem não está habituado, mas as minhas festas não são confusas: são exactamente no tom ideal.


3. "Era um abutre que me bicava os pés. Tinha já rasgado as botas e as meias e agora bicava os próprios pés."

Tentei ignorar que eram 25 anos e que a minha prima, quando o ano passado completou a mesma idade, ouviu da nossa querida prima Sara (que já leva mais um Lopes na barriga!!): "25! Foi com essa idade que casei!" A Sara prometeu que não me diria o mesmo e cumpriu. Mas, caramba, que é difícil não pensar que é um quarto de século e que não tenho nada que possa chamar meu (além da minha pequena biblioteca e da minha pequena discoteca, my precious). Casamento? Continua a ser um sonho longínquo, como há 10 anos atrás. Tentei ignorar e lembrar-me de todos os que, na noite anterior, no estúdio do 5 para a meia noite me disseram: "só 25? Quem me dera..." Mas o sacana do abutre do tempo a morder os pés, a bicar, a bicar.

E pensei inevitavelmente naqueles que não me deram os parabéns. Não sejamos hipócritas: todos fazemos uma lista mental de nomes que vamos riscando ao longo do dia. No fim, se tudo correr bem, ficam apenas dois ou três na folha inventada na cabeça. Mandamo-los para o sotão do cérebro, aquele sítio escuro e sujo onde entramos o mínimo possível. Mas sabemos que, entre más memórias, gente que passou veloz e teias de aranhas, eles estão lá: aquelas pessoas que gostávamos que se tivessem lembrado, mas não se lembraram. Nem no dia seguinte, nem passados dois dias.

No entanto, chegando ao fim, o que conta é só isto (e isto):



Saber que consegui juntar-nos a todos (apêndices incluídos. Só faltou o Berton!). Estes sorrisos que não estavam juntos na mesma fotografia há tantos meses. Estas carruagens (e as outras, as de sangue e amor, a querida e SEMPRE presente família), todas tão diferentes, mas que se ligam num comboio único.

4. "Esse comboio era um pedaço de vida no meio de toda a terra moribunda"



1. Man in the Dark, Paul Auster
2. Contos, Franz Kafka

3. Jesusalém, Mia Couto
4. O Velho Expresso da Patagónia, Paul Theroux


* Todos estes livros vieram parar-me às mãos em forma de presentes. Obrigada.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Turn-offs

Ontem, entre sushi, chegou-se a conclusões.

1. "Perde-se um bocado o interesse num homem quando se sabe que ele já se enrolou com meio mundo. Sentimo-nos só mais uma."

2. "Ele bem pode convidar-me, mas não vai ter sorte nenhuma. Dá muitos erros ortográficos no messenger."


Tirem notas, senhores.