Mas talvez baste pegar nele, levá-lo à exposição dos brasileiros OsGêmeos no Museu Berardo e mandá-lo espreitar para dentro da caixa com óculos-lupa que lá se encontra. Se, ao ver o que está lá dentro, sorrir, vale a pena dar-lhe atenção: é porque tem qualquer coisa de optimista, de inocente, de genuíno, sem a qual o amor não acontece.
Quem ainda não foi ver "Pra quem mora lá, o céu é lá", ainda têm uma semana. Uma experiência que tem só um preço: fazer pensar.
Sexta-feira foi noite de ir ao cinema com a Ana, amiga que a Gema me deixou em herança. Decidimos ver The Box, um filme com a Cameron Diaz que não é uma comédia romântica (já aguça a curiosidade, não é?). Tive o cuidado de olhar para o cartaz e dizer o nome em português, a tradução literal "Presente de Morte", "dois bilhetes para..., um com Medeia Card".
Entrámos, a tempo de ver alguns trailers e, em surdina, fomos comentando outros filmes que estavam em cartaz. Um deles, tinha a actriz Anna Kendrick, que fez um trabalho brilhante no não menos brilhante filme Up in the Air. Comentei:
- "Aquilo deve ser uma comédia qualquer, é com o parvo do Adam Sandler. Deve ser muito mau."
De repente, começa o filme. Aparece Jason Schwartzman e, logo a seguir, Adam Sandler. "Não, este é o Ben Stiller", diz a Ana. Pronto, o Ben Stiller. Para mim, são uma e a mesma pessoa. Começamos por rir nervosamente. "Então mas este também entra aqui. Ah ah ah... nós a dizermos mal... ah ah ah". O riso pára quando eu decido olhar para o bilhete e leio "A Vida Desafinada". Pânico! Raiva! Então não é que a FDP da mulher da bilheteira nos deus bilhetes para aquilo?? Enganada, que eu tenho a certeza de que disse "Presente de Morte", uma pessoa não esquece que disse "Presente de Morte".
Como a hora já não permitia ir trocar o bilhete nem ver outro filme, respirámos fundo e pensámos que o filme seria assim uma espécie de despedida do Verão e do seu cinema tonto. Podia ser que ainda desse para rir um bocadinho com a comédia e chorar um bocadinho com a romântica.
Mas aquilo nem era comédia, nem era romântica, tinha música mas não era um musical. Posso dizer-vos muitas coisas que o filme não é, mas não consigo descobrir o que é. A Ana adormeceu. Eu nem consegui, de tão atónita.
A Anna Kendrick a fazer de miúda de 18 anos, numa escola secundária que vive para o dia em que põe em cena um musical inspirado no Feiticeiro de Oz. O Jason Schwartzman com um cabelo indiscritível. O Ben Stiller a fazer de Tom Cruise, tendo em conta os gestos, as expressões e o corte de cabelo. E todos eles, mais os personagens secundários, pareciam atrasados mentais. Um filme de gente retardada para gente retardada. Eu ainda tenho a sensação de que aquilo é cinema de beneficiência, organizado pela CERCI de Los Angeles, e que os bilhetes revertem a favor dos actores considerados cidadãos inadaptados. Por uma questão de altruísmo, as senhoras da bilheteiras têm ordens para dar bilhetes daquilo às pessoas, como se fosse por engano.
Só pode ter sido por bondade que a Kendrick, depois de nomeação para Óscar e tudo, e o excelente Schwartzman aceitaram fazer um filme em que o Ben Stiller canta e em que um grupinho tipo Tetvocal faz um medley que temos de ver... na íntegra.
E quando se pensa que há ali um conflito e que a personagem vai finalmente revoltar-se e dar porrada nos maus e reconciliar-se com a garota ao pôr do sol, o filme acaba. Nem ele faz chantagem com o mau, apesar de ter provas de que este andou a mexer com a miúda dele, nem acaba aos beijinhos com ela. Acaba ao piano... a cantar.
Quando derem por vocês a pensar "aaah, não tenho nada para fazer, vou ver aquele em que o Adam Sandler, ai, não, o Ben Stiller canta e não sei quê", pensem melhor. De certeza que têm alguma coisa mais interessante para fazer. Tipo contar manchas de bolor no tecto. Ou olhar para uma parede branca. Ou ler no IMDB a filmografia do Adam Sandler.
PS.: Há aqui coisas que parecem ter uma ligeira piada, mas é só porque estão retiradas do seu contexto. Não se enganem.
Hoje vou dar uma de Pipoca e responder a um comentário que surgiu ao meu post anterior, sobre o novo livro do João Tordo, "O Bom Inverno".
O comentário:
"Só posso dizer que se for tão bom como as 3 vidas (sobre os 2 primeiros nada posso dizer) é um desperdício de papel. Em literatura portuguesa contemporânea, não me lembro de coisa mais delirante e descabelada (conseguindo, no entanto, ser exasperantemente monótona), mais privada de qualquer sentido de humor ou de ironia... Nenhum detalhe nos poupa o JT (que devia chamar-se antes joão pardo), o suposto delfim do josé saramago. A elipse não existe para ele, e assim, um conto ou uma novela medíocres incharam até ás 300 páginas. Como vai nu esse rei (mas como a rainha-mãe e o ex dela são quem são, e portugal é o que é, não hão-de faltar os arautos a proclamá-lo - outra vez - um génio...). Não perca tempo com o JT, que a vida é curta, mesmo para jovens como você e a sua colega, e o que não falta são grandes livros..."
Caro Anónimo: Como diria Jack, o Estripador: vamos por partes. Primeiro, estou a contar que "O Bom Inverno" seja tão bom ou melhor do que "As Três Vidas". Mau acho muito difícil que seja, já que, pelo que tem mostrado, o João Tordo não tem a capacidade de escrever maus livros. Tenho a certeza de que não será um desperdício de papel - pode apaziguar as suas preocupações ambientais. Segundo, isso de o romance não ter sentido de humor ou ironia não me parece sinónimo de coisa má. Que eu saiba, há muito boa literatura que é desprovida dessas duas características (que o João Tordo, aliás, pessoalmente, tem a rodos). Tanto o humor como a ironia são coisas muito portuguesas e não se encontram frequentemente na literatura anglo-saxónica, inspiração assumida do João. Os escritores não têm de ser todos Eças ou Saramagos para serem bons. O que nos leva ao próximo ponto. Não sei bem o que significa ser o "delfim do Saramago", mas penso que se refira ao prémio que o João Tordo ganhou este ano (muito justamente, a meu ver). O nome do prémio não significa que o vencedor do mesmo seja um protegido do José Saramago. Este, aliás, até onde me lembro, nem faz parte do júri. O próprio João Tordo afirma que o Saramago não deve gostar especialmente dos seus livros, inspirados na tradição inglesa e americana no que toca à maneira de contar histórias (ou seja, o mais importante é a história e é esta que prevalece, mais que as figuras de estilo, o simbolismo ou a estética da escrita - e isto não é pior ou melhor, é diferente). Quanto à forma como uso o meu tempo, agradeço a sua preocupação. No entanto, conto-lhe um segredo (e que é o mais importante desta história toda): a literatura não é ciência, é arte. E a arte, podendo ser objecto de avaliação e crítica, assenta no impacto que causa em quem a aprecia. Essa é, do meu ponto de vista, a avaliação fundamental e última: ou emociona ou não. Posso até achar que certos autores escrevem muito bem, mas os seus livros não me dizerem nada e não conseguir passar da primeira página. Quanto ao João Tordo, calha que ele escreve muitíssimo bem e os seus livros agarram-me, da primeira à última palavra. Não me esqueci da sua referência tão portuguesa em relação aos progenitores do João Tordo, o chamado factor C. Compreendo-a perfeitamente: a mãe e o pai do João têm de facto uma influência extraordinária no mundo editorial, principalmente junto a uma editora maleável e fraquinha de espírito como a Maria do Rosário Pedreira. Dos seus pais não posso falar, já que nem me deu uma pista do seu apelido. A ironia chegou-lhe ou precisa de mais um bocadinho?
Já agora, no El Corte Inglés está com 10% de desconto. E na Wook também. E na Fnac também, com cartão aderente. A utilidade do preço inicial é uma incógnita. Como ainda não li, por enquanto são estas as considerações que tenho a fazer sobre o livro.
Desci as escadas e senti a noite de Verão transformar-se. O vento que me levantou os cabelos já não era morno, mas fresco, capaz de eriçar os meus pêlos dourados pelo sol. Olhei em volta: uma estação de serviço, igual a tantas outras, numa zona de planície. Nenhum outro veículo estava estacionado ali próximo; o autocarro de onde tinha acabado de sair parecia um erro de cenografia, ali no meio de nada. Peguei na minha mala, afastei-me uns passos e pousei-a junto aos meus pés. Perguntei a alguém que passava: "Onde estamos?". A resposta: "Em Grândola".
Eu pensei que este fim de semana fosse mudar a minha vida. Não dessa forma tipo livro de auto-ajuda, "como dois dias no Algarve fizeram de mim a mulher feliz que sou hoje", nada disso. Simplesmente, dormi no mesmo quarto que um bebé e uma criança pequena, o que implicou acordar ali por volta das 7 da manhã e levantar às 8, para acompanhar os pais dos petizes no pequeno-almoço. Eram 23h de sábado e eu já estava a cair de sono (coisa que não acontecia desde 1994, sensivelmente). Pensei, "bom, vou aproveitar este novo ritmo, domingo deito-me cedinho, segunda levanto-me cedinho e posso tomar o pequeno-almoço sentada, comer fruta, ir comprar o jornal, fazer a cama como deve ser e essas coisas de mulher ajuizada".
Ora, do pensar ao fazer vai uma grande distância, principalmente quando o universo se interpõe entre nós e a nossa vontade. O expresso já saiu de Portimão dez minutos atrasado. Não ignorei o mau augúrio, mas não havia nada que pudesse fazer. A meio do caminho, o autocarro seguiu uns poucos quilómetros por entre a escuridão meio fora meio dentro da faixa de rodagem. Imaginei um motorista a adormecer e a viatura a resvalar pela encosta abaixo e os passageiros todos perdidos no meio da selva alentejana, a caçar javalis e a carregar numa tecla de computador e sei lá mais que coisas perigosas. Devagar, lá entrámos na estação de serviço de Grândola, vila morena, terra da adversidade, e o motorista deu a triste notícia: o autocarro estava avariado. A mecânica é quem mais ordena dentro de ti, ó cidade. Depois de entrarem uns quantos passageiros nos dois últimos expressos que ali passaram, percebemos que teríamos de esperar que fosse uma nova viatura de Lisboa de propósito. "Isto ainda vai demorar pelo menos umas duas horas". Bonito.
Foram duas horas e meia de espera em Grândola, que incluíram a compra de uma empada e um pacote de Fritos e a leitura de um livro. E aqui aconteceu algo importante. O avanço no livro foi possível apenas e só devido à minha ridícula caneta com uma lanterna na ponta. É que a luz mortiça do autocarro no breu da noite não chegava para os meus olhinhos e foi aquela característica da caneta, antes desprezada e gozada, que permitiu que o tempo passasse mais depressa.
Conclusão: em vez de chegar a Lisboa às 23:30, cheguei quase às 3 da manhã. O meu deitar cedo e cedo erguer foi por água abaixo.
Moral: nunca desprezar as pequenas características diferenciadoras de um objecto quotidiano. Mais dia, menos dia, também você vai precisar daquela luzinha azul na ponta da esferográfica.
Sabem aquelas cenas de filme em que moças muito jeitosas saem de uma mota, tiram o capacete graciosamente em câmara lenta e sacodem o cabelo sedoso com o sol a bater na face de lábios entreabertos?
Pois, garotada, isso não existe. É tudo efeito especial. Ou então ela usa um capacete muito largo. Quem anda de mota, sabe do que falo. Aqueles capacetes à séria, completos, não se colocam nem retiram com facilidade. Não. Eles são bem apertadinhos e deixam as bochechas esmagadas. Para tirá-los, é preciso alguma brusquidão e o cabelo vem atrás, todo cheio de electricidade. A cara fica com as marcas da tecido interior, principalmente se estiver calor.
Com isto quero dizer que essa coisa da mulher 100% sexy só existe nos filmes. E porque eles filmam várias vezes a mesma cena. E editam. E põem efeitos especiais. A pessoa normal não anda por aí a semicerrar os olhos pela rua e a fazer coisas em câmara lenta (até porque seria patético).
Aquela jovem loira e recauchutada chamada Bastet, por exemplo, disse que fazia a lida doméstica toda nua e de saltos altos. Please. São criaturas como esta que lixam a vida às outras mulheres, porque os jovens machos andam por aí a acreditar que isto existe mesmo, que é possível, que nós é que não nos esforçamos. E, verdade seja dita, fazer-se de sexy é tão pouco sexy.
Há realmente senhoras que transpiram sensualidade, naturalmente. Mas também cortam as unhas dos pés e tiram o buço, disso podem ter a certeza.
Bonito, bonito, é um homem ver sexyness em cada gesto de uma tal mulher, em cada passo quotidiano, em cada encolher de ombros corriqueiro. Mas isso, caríssimos, já é paixão.
Onde é que falhaste, irmã? Que cano te escapou? Que dedicação te faltou? Que lixívia secou? Que barata ruim resistiu à tua arma líquida e ficou apenas com uma grande moca e uma ressaca daquelas pela manhã?
O músico Wyclef Jean apresentou oficialmente a sua candidatura à presidência do Haiti (notícia aqui). Para quem não sabe quase nada sobre a tentativa de país que é o Haiti, isto pode parecer estranho. Como ele próprio diz, "as pessoas vão perguntar: "Meu, o que é que ele sabe de política?". Muito pouco. A questão aqui é que o Haiti talvez não precise de políticos agora. Provavelmente, precisa mais (e urgentemente) de uma inspiração e, se pensarmos assim, a candidatura do Wyclef Jean faz todo o sentido.
Estas ideias tornam-se lógicas, depois de ver este filme:
Ghosts of Cité Soleil é, quase certamente, o melhor documentário que já vi (atenção, apesar de documentário, é cinema. Ou seja, tem uma história construída, tem edição, não é o espelho de toda a realidade). A Cité Soleil, situada em Port-au-Prince, no Haiti, é considerada o sítio mais perigoso do mundo. Embora facilmente comparável às favelas brasileiras, põe-nas a um canto. É um país dentro de um país, dividido por zonas, cada uma delas controlada por um líder. Como sempre acontece, mesmo o mais tirano dos líderes tem o poder que o povo lhe confere (de forma mais ou menos consciente) e estes têm todo o poder, materializado em armas, droga e outros "tesouros" ilegais. É que estes gangsters são capazes de ir entregar um maço de notas a uma mulher e dizer-lhe "toma, para pores os teus filhos na escola". Já o governo, não entrega nada ao povo, pobre como não sabemos o que é ser pobre (é o país mais pobre da América, quase metade da população é analfabeta e está a recuperar de um terramoto que destruiu cerca de 80% da capital) e gasta o pouco que tem em guerra, cargas policiais e sustento de ditaduras. A esperança reside no facto de metade dos haitianos terem menos de 26 anos. E quem é o ídolo dessa juventude? Wyclef Jean, claro, rapper interventivo, nascido no meio deles. É um deles. Para quem ainda acha que a arte é só para quem não tem mais o que fazer, repense. Aquelas pessoas desistiram de depositar esperança nos políticos; as circunstâncias obrigaram-nas a acreditar em gangsters. A ideia de que a salvação do Haiti pode estar nas mãos de um músico, de repente, já não parece assim tão estranho. Pois não?
Veremos o que acontece daqui para a frente.
PS.: O Sean Penn diz que o W. Jean desviou dinheiro de doações. Mas o Sean Penn dá porrada nas mulheres. Não conta.
*Retirado de Ghost of Cité Soleil, canção de Wyclef Jean para a banda sonora do filme.
Hoje acordei e levantei-me mais cedo do que o costume (ó dor), mas não demorei a perceber que estava mesmo acordada. Cheguei à casa de banho e deparei-me com a minha irmã ainda de pijama, com uma fita vermelha mais velha que eu a segurar o cabelo todo, a tentar abrir um frasco de lixívia de dois litros. Na bancada, estava outro, já vazio. Olhou para mim com uma expressão a roçar o pânico.
- "Eles", começou, referindo-se àquela entidade desconhecida que sabe uma data de coisas, como o tempo para amanhã, "eles estão a mandar pôr lixívia nos canos. Vai haver uma invasão de baratas em Lisboa".
Estive quase para a lembrar de que ali em Alfornelos já não é Lisboa, mas vi-a tão aflita que só consegui apontar para a sanita e dizer: "põe aqui também". Ela continuou na azáfama de abrir a lixívia, já com a ajuda de uma tesoura, e, muito concentrada, deitou o líquido no lavatório, na banheira e na sanita. Depois de trabalho pronto, parou dois segundos a olhar em silêncio. A última coisa que disse antes de partir em busca de outros canos saiu já em tom desesperado.
Este domingo, aconteceu o primeiro banho de mar do ano. Já tinha dado um mergulho, mas só isso: um mergulho. Até agora, a praia recebeu-me sempre com água gelada e bandeira vermelha. Mas este domingo, esperava-me um mar calmo e transparente. Cheguei-me à beira-mar. Água muito fria. Exactamente o que eu precisava. Entrei e mergulhei. Lá em baixo, só o corpo a ficar em pele de galinha, os músculos acordados e o silêncio. Saí de novo para o sol e o cérebro voltou a funcionar a mil. Tudo a chegar à memória. A lembrança daquela segunda-feira de desilusão, em que me senti como naqueles empregos em que se é rejeitado por habilitações a mais. Por momentos, pensei: "e se eu fosse uma surfistinha sexy e burra?". A resposta veio rápida: "não era eu. E prefiro ser assim como sou." Complexa. Um puzzle daqueles de mil peças, que só com tempo e dedicação se resolvem. E não são os que dão mais satisfação? Lembrei-me do "desculpa" que ouvi e da carícia que recusei. E andei para trás e lembrei-me daquele dia de carinhos escondidos, trocados por baixo da mesa, por trás do banco do carro, a tentar ocultar o que estava estampado nos nossos sorrisos. E desse sorriso, do qual não direi que iluminava salas ou o meu coração inteiro, porque esse sorriso nada tinha de cliché. E das intermináveis conversas à volta dos filmes. E dos abraços, das mãos dadas, dos beijos. E do fim de semana que talvez não devêssemos ter passado juntos. E das intermináveis conversas à volta das nossas diferenças. E da paixão que morreu rapidamente. E do tempo que afinal foi tão pouco. E das palavras doces que agora parecem mentiras. Mergulhei de novo. Água gélida. Silêncio. A cabeça vazia. E, se pudesse, não saía de lá, desse vazio frio, até que alguém tivesse coragem para enfrentar o puzzle.
Quem ainda não viu, faça o favor a si próprio de ir ver. Óscar de Melhor Filme Estrangeiro mais que merecido. É uma história que, embora fácil de seguir e perceber, é complexa. Um filme completo, que faz rir, faz chorar, é perturbador e com diálogos que nos deixam palavras verdadeiras coladas à memória. "No piense más", ouvi, e parecia que era para mim.
Esta garota entrou directamente para a minha lista de "Pessoas que deviam ir morrer longe", onde constam nomes ilustres como Scarlett Johansson, Heidi Klum ou Marion Cotillard. Isso não impede, contudo, que eu fique toda contentinha quando a minha irmã diz: "essa tua mala é tão Alexa Chung".
Deuses da reencarnação, desta vez quase acertaram, sim senhor, que eu até sou jeitosa e com estilo. Mas deitem um olho nisto e façam só mais um esforçozito para a próxima, sim?
Se puderem enviar-me ao mundo já com o guarda-roupa da pequena Alexa, agradeço.
Lisboa ficou para trás e nem ousei olhar pela janela quando o avião descolou, rumo ao céu azul.
Hoje acordei com trovões e muita chuva a bater na janela. O sol de São Paulo não quis brilhar neste meu primeiro dia. Talvez esteja tímido, talvez seja cauteloso, talvez me queira fazer sofrer um bocadinho. As coisas boas não podem ser mostradas logo ao início porque depois já nada nos consegue surpreender.
A cidade não tem uma cara bonita, daquelas que nos prendem de imediato. É dura para quem chega habituada ao glamour e meiguice das cidades europeias. Ainda mais com este tempo cinzento...
Mas hoje foi o dia zero. Amanhã vou aventurar-me sozinha por aí, vou vestir o casaco e sair para a rua debaixo do meu guarda-chuva florido. E principalmente, vou ter sempre comigo as palavras que um dia escreveu Fernando Pessoa:
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmo lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-lo, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
E pronto. A Gema lá foi para a cidade grande fazer pela vida.
Ficámos a acenar no aeroporto até ela desaparecer da nossa vista. Houve umas lágrimas nos meus olhos, quando ela não estava a ver, mas principalmente sorrisos como quem diz: "vai ser fabuloso; serás muito feliz no sítio das coisas tropicais".
E ela disse assim: "vou ter tantas saudades tuas!"
E eu disse assim: "eu já tenho saudades tuas!"
E já. Mas sem angústia, porque, tal como disse um destes dias no divã, o teu é um amor seguro.
PS.: Vê lá se crias esse blog! Fica aqui a pressão pública.
Há uns dias vi Lolita. Descia as escadas do metro, passos lânguidos e aparentemente seguros. Segurava o cabelo com as mãos, não de forma prática e rápida como quem tenta refrescar a nuca, mas num gesto lento como quem diz 'tenho a nuca quente'. O olhar vinha de baixo, como as modelos quase despidas das capas das revistas. A atitude sensual era ajudada pela beleza de cabelo loiro e olhos azuis. Atrás dela, vinham os pais e um provável irmão mais velho. Lolita caminhava dois ou três passos à frente e sabia-o.
Não sei quando foi que as meninas decidiram querer ser mulheres rapidamente. Também eu vasculhei as roupas da minha mãe e desfilei vestidos de noite feitos de camisas frente ao espelho (e já sabia que só podia usar aquele grupo de roupas específico), mas o meu comportamento de imitação das mulheres ficava por aí. Hoje, há meninas de 13 anos nos Estados Unidos que fazem sexo oral aos colegas de turma no banco de trás do autocarro da escola. Hoje, há meninas de 15 anos que já se deitaram com metade dos rapazes da escola. Hoje, há meninas de 16 anos que dizem às amigas de 16 anos: "não é normal ainda seres virgem" (e este aqui em Portugal, caso verídico). E é aqui que eu torço realmente o nariz.
Vade retro, puritanismo. Não é de valores morais que trata este texto. O que me assusta nem é tanto ser normal ter sexo a partir dos 13 (sempre aconteceu); o que me assusta é "não ser normal" chegar-se aos 16 sem o ter tido. É aqui que as meninas revelam as crianças que realmente são e não as mulheres que querem parecer. Porque é de criança achar-se que há uma idade "normal", porque é de criança pensar que depois "daquilo" já se é mulher e já se tem toda a sabedoria. E não é suposto crianças andarem a ter sexo, principalmente de forma indiscriminada. Não é suposto crianças terem olhares lânguidos e bocas entreabertas. Nem é previsto meninas fingirem que não é amor que querem e pavonearem-se entre as amigas com atitude cínica e desencantada.
E o prazer da descoberta onde fica? Se quando se começa a sentir uma ligeira vontade de descobrir, aquele suave formigueiro nos pés que nos impele a andar por um caminho desconhecido, já se está lá, já se chegou. Será que não se deixou nada pelo caminho? Será que os pés não foram sozinhos?
Lolita é personagem de romance por ser única, por ser excepção, por ser diferente de todas as outras. Se fossem todas Lolitas, Nabokov provavelmente não teria sobre que escrever ou seria apenas um escritor medíocre que conta histórias sobre uma menina igual às outras.
A Lolita que vi descer as escadas do metro, fazendo dançar subtilmente as ancas, ainda a meio caminho do tamanho final, desconcertou-me. Se pudesse, dizia-lhe: não é assim que tens de ser agora, não queiras crescer tão depressa. Senão, corres o risco de chegar a uma altura em que te perguntas: já fiz tudo. E agora? Vivo para quê?