terça-feira, 20 de abril de 2010

Há pouco, o P. fez-me escrever assim:


A nossa geração é cobarde, sabes?
Temos muito medo de tudo o que é difícil.
Da dor.
Da perda.
Do sacrifício.
Do compromisso.
Queremos só prazer, prazer, prazer.
E depois admiramo-nos por nos sentirmos insatisfeitos.
Como é que podemos ficar satisfeitos com coisas fáceis?



Obrigada, P. Por, como eu, não quereres entorpecer.

2 comentários:

Anónimo disse...

Ah, Clara, vislumbro sob a luminosa filigrana das tuas palavras a sombra de uma melancolia cada vez mais persistente. A "nossa" geração é cobarde, mas faltam-lhe as causas (e os valores que as sustentam) que outras gerações pagaram (as causas, não os valores), com os tais dores, perdas, compromissos e sacrifícios. Não temos à porta, a rugir, um Hitler (faz anos hoje, o Fuhrer); não temos dentro de portas, a rosnar, um Salazar (comer e calar!); não temos um Deus que nos una - o antigo Deus é mau, Allah é grande e desvia aviões, as causas que nos ficam são pífias (pouco mobilizadoras, diz-se agora): a ecologia, a igualdade entre todas as diferenças, a luta contra as "exclusões", o sagrado direito à felicidade individual (porque cada um de nós merece, o quê?, bom, tudo). Ponho as minhas merdas no papelão e no vidrão (e nos outros ões); assino as petições pelos tigres siberianos e pelo fim da tourada; desdenho (quero comprar) o gadget du jour... Que diferença faço? E há sempre, da bulimia ao bullying, o "tema da semana", o fenómeno da corrupção para acompanhar, a Susan Boyle a cinderelar, o testemunho na primeira pessoa, o drama humano, o Leandro e a Maddie, o carrossel dos "jornalistas" continuamente postados para o directo (a tromba de água, o minitornado, a enxurrada, a pedofilia, a cinza que cai e os aviões que não caem - que bom é quando caem, mais "tragédia", mais Dante - o colectivo de juízes e as medidas de coacção, depois os afogamentos e os incêndios, o eterno futebol, o congresso, a rentrée), distraindo: um pontilhismo de que nunca surge uma imagem nítida, uma contínua dispersão das atenções pelo contingente, pelo acidental.. Desistir, não resistir: o convite é irrecusável.

A Voar disse...

Espreita esta letra do jp simões / 1970 e diz-me lá se o nosso amigo P. não está cheio de razão.
http://www.gugalyrics.com/JP-SIM%C3%B5ES-1970-(RETRATO)-LYRICS/429309/
Bjs
A Voar