segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Quando chove em Havana

Em Havana apercebi-me de que há sentimentos que só nós, os portugueses, podemos ter. Como é que se explica a um cubano a nostalgia de um dia de inverno, em que está frio e a chuva bate na janela? Um dia em que o nosso único desejo é cair no sofá, enrolados numa manta polar, até o sol se dignar a aparecer outra vez? Como é que se explica a um cubano que, em noites de inverno como esta, eu ponho Regina Spektor a tocar e jogo solitário no computador, à espera que as horas passem mais depressa? Que é nestes dias que eu mais queria que o telefone tocasse? Que nestes dias eu sinto a malvada da saudade?

Em Havana, um dia cinzento, com ventos loucos de muitos quilómetros por hora e chuva constante, é um dia de alegria. Há amigas de chinelos nos pés a correr pelo Malecon, tentando apanhar o momento em que a água vai galgar o muro e elas vão ficar encharcadas dos pés à cabeça. E são tão felizes, de mãos dadas, a tremer de frio, e a rir. Acho que, do outro lado da estrada, debaixo do guarda-chuva amarelo e com a ponta do nariz vermelha, consegui vê-las em câmara lenta a sorrir e a correr, quando eram apanhadas pelas ondas gigantes. (Que cliché… mas que se lixe! Deixem-me ser pirosa nas minhas memórias.)

Num dia de chuva em Havana, o doce Saul veste uma camisola de manga comprida vermelha da Lacoste e abre os braços, num sorriso puro, quando diz que fomos apanhados pela frente fria. Ninguém apressa o passo nas ruas e parece que nem reparam que os cabelos voam desgrenhados pelo vento. Ninguém parece aperceber-se de que a chuva não pára desde que começou o dia e só os turistas se escondem nos cafés e nas esplanadas cobertas.

No único dia de chuva que houve em Havana, nós ainda perdemos uns minutos com este vício tão português que é o termos pena de nós próprios. Fizemo-lo as duas, em silêncio no nosso quarto enquanto nos vestíamos, longe da alegria brasileira e cheias de vergonha de o admitir. Mesmo assim, pusemos os nossos vestidos floridos preparámo-nos para o temporal com leggings e casacos de malha e saímos, não nos deixando render a este sentimento, que é uma herança que ninguém merece.

E a chuva parou nesse final de tarde. Bebemos cervejas e ouvimos a música de um dos promissores talentos de Cuba. Comemos quadrados de chocolate. Andámos pelas ruas daquela cidade sem precisar de mapa. E ouviu-se fado numa avenida em Havana. Bebemos guaraná e comemos hambúrgueres na rua, perto do mar. E fomos dançar num domingo à noite, sem ninguém pensar uma única vez se o dia seguinte era de trabalho ou não.


Ao Brayan, ao Saul e ao Orlandiño por terem feito parar a chuva em plena frente fria do Caribe.

2 comentários:

Clara disse...

e agora, a chuva na janela, o trabalho na mesa, casaco grande e a saudade, saudade, saudade...

Anónimo disse...

saudades da tua escrita...