segunda-feira, 23 de agosto de 2010

De Portimão a Lisboa são... 6 horas de distância?



Desci as escadas e senti a noite de Verão transformar-se. O vento que me levantou os cabelos já não era morno, mas fresco, capaz de eriçar os meus pêlos dourados pelo sol. Olhei em volta: uma estação de serviço, igual a tantas outras, numa zona de planície. Nenhum outro veículo estava estacionado ali próximo; o autocarro de onde tinha acabado de sair parecia um erro de cenografia, ali no meio de nada. Peguei na minha mala, afastei-me uns passos e pousei-a junto aos meus pés. Perguntei a alguém que passava: "Onde estamos?". A resposta: "Em Grândola".


Eu pensei que este fim de semana fosse mudar a minha vida. Não dessa forma tipo livro de auto-ajuda, "como dois dias no Algarve fizeram de mim a mulher feliz que sou hoje", nada disso. Simplesmente, dormi no mesmo quarto que um bebé e uma criança pequena, o que implicou acordar ali por volta das 7 da manhã e levantar às 8, para acompanhar os pais dos petizes no pequeno-almoço. Eram 23h de sábado e eu já estava a cair de sono (coisa que não acontecia desde 1994, sensivelmente). Pensei, "bom, vou aproveitar este novo ritmo, domingo deito-me cedinho, segunda levanto-me cedinho e posso tomar o pequeno-almoço sentada, comer fruta, ir comprar o jornal, fazer a cama como deve ser e essas coisas de mulher ajuizada".

Ora, do pensar ao fazer vai uma grande distância, principalmente quando o universo se interpõe entre nós e a nossa vontade. O expresso já saiu de Portimão dez minutos atrasado. Não ignorei o mau augúrio, mas não havia nada que pudesse fazer. A meio do caminho, o autocarro seguiu uns poucos quilómetros por entre a escuridão meio fora meio dentro da faixa de rodagem. Imaginei um motorista a adormecer e a viatura a resvalar pela encosta abaixo e os passageiros todos perdidos no meio da selva alentejana, a caçar javalis e a carregar numa tecla de computador e sei lá mais que coisas perigosas. Devagar, lá entrámos na estação de serviço de Grândola, vila morena, terra da adversidade, e o motorista deu a triste notícia: o autocarro estava avariado. A mecânica é quem mais ordena dentro de ti, ó cidade. Depois de entrarem uns quantos passageiros nos dois últimos expressos que ali passaram, percebemos que teríamos de esperar que fosse uma nova viatura de Lisboa de propósito. "Isto ainda vai demorar pelo menos umas duas horas". Bonito.

Foram duas horas e meia de espera em Grândola, que incluíram a compra de uma empada e um pacote de Fritos e a leitura de um livro. E aqui aconteceu algo importante. O avanço no livro foi possível apenas e só devido à minha ridícula caneta com uma lanterna na ponta. É que a luz mortiça do autocarro no breu da noite não chegava para os meus olhinhos e foi aquela característica da caneta, antes desprezada e gozada, que permitiu que o tempo passasse mais depressa.

Conclusão: em vez de chegar a Lisboa às 23:30, cheguei quase às 3 da manhã. O meu deitar cedo e cedo erguer foi por água abaixo.

Moral: nunca desprezar as pequenas características diferenciadoras de um objecto quotidiano. Mais dia, menos dia, também você vai precisar daquela luzinha azul na ponta da esferográfica.

2 comentários:

Cacheada disse...

aai,. por isso ñ faço planos para as coisas...
pq eh foda...
vc por espectativa em fazer algo, e ir de água a baixo
:S

Rafaela disse...

Que coincidência...eu ia nesse mesmo autocarro!
Acompanhei um amigo que partia para os Estados Unidos às 6 da manhã e conseguimos apressar-nos e entrar no primeiro autocarro, o tal que tinha 18 lugares livres ainda.
Ainda por cima, já conhecia o teu blog. Mundo pequeno, sem dúvida.
Beijinho!