quarta-feira, 22 de julho de 2009

Turn-offs

Ontem, entre sushi, chegou-se a conclusões.

1. "Perde-se um bocado o interesse num homem quando se sabe que ele já se enrolou com meio mundo. Sentimo-nos só mais uma."

2. "Ele bem pode convidar-me, mas não vai ter sorte nenhuma. Dá muitos erros ortográficos no messenger."


Tirem notas, senhores.

domingo, 19 de julho de 2009

Wuthering Heights



(Tu. Saberás já que és tu na próxima frase. Um dias destes perguntaste-me se alguma vez iria escrever uma coisa boa sobre ti no blog. A resposta continua a mesma: não sei. É uma resposta frustrante, mas é a verdadeira. E a verdade é sempre melhor. Só sei que não será hoje que vou escrever uma coisa boa sobre ti.)

É uma história de um homem que cometeu um erro e de uma mulher fraca (sensível? romântica?). He had a temper like her jealousy: too hard, too greedy. Os sonhos avisaram-na que ela "was going to lose the fight".

Esta não é a minha história. É só a história que canta a Kate Bush. As insónias que me assaltaram na semana que passou não deixaram que sonhos nenhuns me avisassem de coisa alguma. Além disso, ela diz que corre para ele e eu, pelo contrário, quero (tenho de) correr para longe. Ela pede-lhe para entrar pela janela e eu recuso-me a isso: não me ficarei por menos de uma porta. Ela está "cold", eu tive hoje uma tarde quente de praia e ontem o casamento de uma amiga - os pés na areia e os sorrisos de orelha a orelha nas caras da Maria e do Francisco revitalizaram-me mais do que qualquer noite bem dormida.

Foi hoje, de olhos semi-cerrados à conta do sol, que comecei a ler um novo livro. Descobri recentemente que a Emily Brontë nasceu no mesmo dia e mesmo mês que eu. Como se aproxima rapidamente esse dia, sabia que O Monte dos Vendavais, que conta o amor de Cathy e Heathcliff, era a escolha óbvia para "próxima leitura". O nome original é Wuthering Heights.

Veremos como se desenrola esta história.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Já, Pina Bausch?


Café Müller foi a única coreografia sua que Pina Bausch interpretou.


A dança tem estado doente nestes dias. Pina Bausch tinha 68 anos e morreu hoje de manhã no hospital. A dança dela era "a interpretação da alma".

Mais aqui.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O rei não morreu




Ficará na música e nos vídeos. Ignore-se o ar inumano, próprio de um lunático. Verdade seja dita, esta dança também não pode ser humana. O meu lado artístico (musical, bailarino, performer) chora. Isto que se vê neste vídeo, este som, estes movimentos, são arte.

Estava com as minhas amigas bailarinas quando soube. Curioso como a vida às vezes parece pensada ao pormenor.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Livre



Lembrava-me sempre de ti quando ouvia esta música. Tu, todo vestido de preto, eu, sempre de branco, mas entendíamos-nos, ou não nos entendíamos mas gostávamos disso, das perguntas e respostas, o desafio de tentarmos perceber-nos. E eu queria ser tua namorada, mas tu não querias ser meu namorado. Convidavas-me para tudo, tomávamos café, bebíamos cerveja, apresentaste-me a tua casa (mesmo perto da minha, que boa descoberta), o teu cão (um cão-de-água preto, lindo), conhecia a voz da tua mãe ao telefone e ela sabia o meu nome. E nunca quiseste ser meu namorado. Já querias proteger-me naquela altura? Fui eu que quis conhecer-te, lembras-te? Naquela escola de barracões de madeira e ambiente leve, leve, todos nós amigos. Gostava do teu ar soturno, do teu andar calmo, de como enrolavas os cigarros, do sorriso irónico que consegui arrancar algumas vezes à tua cara triste.
Eu gostava mais deste álbum, porque era mais melodioso. Tu preferias outro, não me lembro bem qual, o Eternity ou o Silent Enigma, mais pesado. Não sei. Os Anathema (única banda metal de que alguma vez gostei) uniam-nos. Uma vez deste-me uma fotografia (ainda lá está, numa caixa de metal)e escreveste por trás : "para quê viver, se amanhã morrerei?" Eu fiquei zangada, queria era uma dedicatória (para a Marta, gosto de ti, assim qualquer coisa). Mas tu escreveste aquilo, negro como o teu cabelo comprido.
Depois as nossas vidas seguiram rumos diferentes. Eu soube de ti algumas vezes, mota, namorada louca, hospital, psiquiatra. Já não estavas na minha vida, fazias parte apenas da minha memória. Um dia, foi a minha mãe que me ligou,

- Marta, lembras-te daquele rapaz, o D.?

E eu soube logo o que ela me ia dizer. Só precisava de saber como.

- Foi na ponte. Atirou-se.

Assim mesmo: atirou-se. A minha surpresa foi nenhuma. As memórias assomaram todas de repente, a roupa preta, tu no meu sofá, eu a fazer festas ao teu cão, as imperiais, os cafés, os cigarros que fumavas, o fumo teu que eu fumava, os meus 16 anos vestida de branco (sempre de branco e rosa), o pentagrama que queimaste na perna (disseste-me, nunca o vi), os Anathema, aquela música, "i want you to be free of all the pain", e tu agora finalmente livre da dor. Chorei.
Não pude ir ao funeral que te fizeram, depois de finalmente te encontrarem (pensei nos teus pais, na tua irmã, no teu cão). Ainda bem. Tu naquela altura existias ainda vivo na minha memória. Como hoje, na minha memória. Lembro-me de ti vivo sempre, sempre!, que oiço aquela música. E noutras alturas aleatórias, como hoje de manhã.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

É música. É amor perfeito.


Uma mulher nua, estão a ver? Alguns devem mesmo estar a ver, literalmente, (seja real ou toda de plástico, encontrada nesses meandros da internet), outros não têm bem a certeza do que isso é e outros não se lembram. Os homens, claro. As mulheres vêem todos os dias e às vezes não queriam nada.
Mas voltando ao que importa - uma mulher nua. Curvilínea, cintura fina e anca larga, mulher à séria, como as de antigamente. Abandonada, encosta a cabeça no ombro do homem que a segura, a respiração dela no pescoço dele, numa postura de confiança total. O encaixe é delicado mas firme, os dois corpos só podiam pertencer ali, um ao outro. O homem olha-a apenas muito raramente, porque não precisa de mais. Conhece-lhe o jeitinho mimado, sabe que mão posta um milímetro para lá do sítio exacto fá-la reagir agressivamente, desafinada de tão ferida. Mas ele não teme. As pontas dos dedos percorrem um caminho perfeito, sabido de cor, que, no entanto, parece repleto de surpresas, de mudanças súbitas, de novas escolhas.
Ela reage a cada toque, mesmo ao mais subtil. Geme de voz fina e suplicante, respira forte de voz quente e baixa. Ele varia com ela - ora sorri levemente com cara de Primavera, ora franze as sobrancelhas numa expressão dorida; ora a trata com movimentos bruscos de quem quer mostrar controlo, ora a embala numa sintonizada dança a dois que parecem um.
É um homem e o seu violoncelo. E a música que dali sai, tão íntima, quase dá vergonha de ouvir por nos sentirmos intrusos num amor perfeito.


Recebi mais uma carta da Holanda. Desta vez vinham três cds com tesouros lá dentro e um postal. Neste, a bela cidade de Utrecht e a letra verdadeira do lindíssimo Violoncelista Holandês. Em cima "Olá, Marta!" (assim mesmo, em português); no fim "Beijos" (assim mesmo, em português). Discretamente antes da assinatura,

"love life".

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Coisa engraçada

Às vezes uma pessoa dá por si a receber conselhos inteligentes de um sítio totalmente inesperado.




Este blog qualquer dia muda de nome para "O Videoclip dentro do Armário". Embora isto não seja bem um videoclip. Mas enfim, fica uma música catita e imagens de um jovem que é uma riqueza do nosso Portugal para encher o olho às meninas. Mnham Mnham.

PS: Também aparecem umas imagens de gente estranha. Ignorem. Não sei quem fez isto.

domingo, 14 de junho de 2009

No outro dia, o destino chegou-se ao meu ouvido e disse:

"Toma lá um chapadão de todo o tamanho nessa cara bonitinha. Pensaste que era fácil? Que era só sorrir e acreditar em coisas boas e elas aconteciam? Isso querias tu. A vida não é essa facilidade toda. Então a felicidade... custa. Sua lá mais um bocadinho que não te faz mal. Mete o pé no buraco, mais um também não te faz diferença. Tropeça e cai, que uns arranhões até dão cor à tua pele anémica. Agarra-te ao estômago. Já nem sabes o que te fez mal, não é? A bebida, a comida, o soco. Mas que está aí um nó, está. Deixa lá, isso passa. Como passa sempre. Deixa lá e continua a acreditar que qualquer coisa muito boa te vai acontecer brevemente. Pode ser que aconteça mesmo. Agora limpa mas é essa cara, está cheia de terra. Vê se para a próxima olhas para o chão e não cais dessa maneira."

Chega o Chico e diz assim: "não se afobe não..."

domingo, 7 de junho de 2009

Prima, esta vai para ti

"Ni kan tiyen, sewa tiyen. Ni sewa tiyen, kantiyen."
(Provérbio Malinke)

Sem música não há alegria. Sem alegria, não há música.


sábado, 6 de junho de 2009

A tua dor é a minha

Há dias que se passam de lágrimas sempre a querer sair dos olhos, à força, como se o espaço lá dentro fosse demasiado pequeno para aquela água toda. Dias que parecem aqueles sonhos em que gritamos, mas ninguém nos ouve, em que corremos, mas não chegamos a lado nenhum, em que caímos, caímos, caímos sem aterrar. Dias sós. Só de estar numa estrada longa, de um horizonte ao outro, sem ver ninguém, sem distinguir o mínimo movimento, em que o único som é apenas o eco da nossa própria respiração angustiada. Num dia assim, como o de hoje, em que dormir parece ser a única actividade plausível, pensei que este sentimento de sufoco fosse por culpa daquela mensagem sem resposta ou daquele telefonema no vazio ou do desconforto do lar. Mas agora sinto que foi a tua dor que me chegou. Como os irmãos que se sentem à distância. Foi de certeza a tua dor que veio de longe e me chegou assim em forma de nó na garganta, para me avisar que o caminho soalheiro da vida se tinha perdido de si mesmo e embrenhado na floresta escura.

Perdoa-me a futilidade. Se eu soubesse, se eu tivesse percebido que a angústia era tua e não minha, tinha escrito antes assim: beijo com gosto de amor para a minha irmã de alma.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Aquela música

Devia estar num first date, mas não estava. Entregue à televisão, passo na VH1, que transmitia o programa Smells like the 90's. Obviamente, parei. Já contava ouvir músicas da minha infância/adolescência, mas não estava à espera daquela. Aquela que era a nossa favorita - minha e da minha grande amiga Lara. As vezes que ouvimos aquela canção... não as recordo todas, mas lembro-me bem de a escrevermos a caneta verde com cheiro de menta num bloco de papel reciclado (ou pelo menos de folhas de tom acastanhado). Foi antes disto tudo, da vida complicada, no tempo do grunge, dos cabelos compridos e despenteados, do rock n roll vindo da alma, no tempo em que a música era o mais importante, o nosso guia, o nosso espelho, a nossa vida feita acordes de guitarra e poemas em vozes arranhadas. Aqui fica para a Lara, companheira siamesa de crescimento, que, apesar de nem saber que hoje eu teria um date, está instalada com lugar cativo no meu coração para sempre. Era AQUELA música, lembras-te?

terça-feira, 2 de junho de 2009

Sou só eu?

Quando oiço a primeira, lembro-me sempre da segunda. Não consigo evitar.





segunda-feira, 1 de junho de 2009

terça-feira, 26 de maio de 2009

"What an excellent day for an exorcism!"

Ao Penim, que conheceu dois exorcistas na semana passada.

Lembram-se de um dos últimos posts da Clara, o “Cumplicidade”? Pois bem, vamos continuar a recordar o maravilhoso tempo em que as Elas e os Elos se tornaram amigos inseparáveis e prometeram ficar juntos para sempre, na alegria e na tristeza. Desta vez (e porque prometi ao Penim), vou contar-vos uma linda estória que junta um jantar com muito vinho na Feira Popular, uma Casa Assombrada e a miúda do Exorcista.

Foi um dos primeiros jantares de turma no primeiro ano da faculdade e não sei como é que os nossos fígados tão tenrinhos conseguiram absorver tantos litros de álcool. Todos nos fartamos de rir quando vemos a fotografia do Zebas em cima da cadeira com uma febra espetada no garfo e a outra em que ele e o Marcos Melo sorriem com cara de parvos e os dentes “podres”.
Saímos do restaurante, de certeza a dizer parvoíces e a rir muito alto, e à nossa frente apareceu, envolta em luz, a “Casa Assombrada”. Agora imaginem que são um grupo de miúdos de 18 anos, bêbedos, e têm a Casa Assombrada ali à mão de semear. O que é que fariam? Pois claro, iam a correr comprar os bilhetes. Ainda não tínhamos dado dois passos e já ninguém parava de gritar. Não me lembro bem do que havia lá dentro, mas sei que, depois de passarmos um corredor escuro, entrámos num quarto onde havia uma cama toda almofadada com a miúda do Exorcista deitada. Eu podia jurar que a cama levitava como no filme, ela tinha a cara verde e completamente destruída, os olhos florescentes, possuídos pelo demo, uma camisa de noite branca e era muito muito má. Mal entrámos já só queríamos sair e se possível passando bem longe da criatura. Atravessámos o quarto a correr, a miúda a gritar connosco, nós a gritar para os da frente correrem mais rápido, os outros “monstros” a gritarem lá fora… No meio do pânico a Vera caiu aos pés da cama. A miúda do Exorcista levantou-se, caminhou até ela, a Vera olhava para a miúda e não parava de gritar, a miúda chegou ao pé dela e… não, não lhe vomitou uma massa verde para cima, não fez o truque do pescoço e nem sequer a empurrou com violência contra a parede. Perguntou-lhe se estava tudo bem, se precisava de ajuda. Óbvio! Mas a Vera assim que viu a cara dela tão perto gritou ainda mais alto, pôs-se de pé e desatou a correr.
Chegámos ao fim do percurso todos arranhados e com as mãos esfoladas, com o peito ofegante e… completamente sóbrios.

Porque é que eu ainda me lembro desta estória hoje, quando nem sequer consigo reconhecer a pessoas que veio ter comigo na Feira do Livro e me cumprimentou calorosamente? E que, vim a descobrir depois, trabalhou comigo há menos de um ano? Não sei, acho que tenho uma memória cheia de personalidade.

A propósito, na sexta-feira passada vi o Exorcista. Pela primeira vez.

Assim se faz bom jornalismo em Portugal

(Os acontecimentos aqui relatados são ficcionais. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.)


Rita: martinha, tu nao me arranjas por aí o contacto do jorge silva melo?
Marta: talvez. É pra quê? Pra saber do filho deficiente que ele tem escondido no sotão?
Rita: para confirmar umas suspeita de assédio sexual nos anos 90, que o levaram a passar uns dias numa prisão no sudeste da argentina e onde ficou com a horrivel cicatriz escondida no coxis, mesmo mesmo por cima do reguinho do cu
Marta: ah, se é por causa disso, pode ser
Rita: acho que o jornal de letras nao tem qualquer impedimento moral de me dar o numero para confirmar esta tese
Marta: claro que não, temos de ser uns pros outros
Rita: ok, entao ve la isso, que eu dps digo-lhe k venho da tua parte
Marta: queres o número da mãe dele tb? está internada no miguel bombarda com alzheimer, era porteira, mas está convencida que era agente da cia, não deixa nenhum enfermeiro de leste chegar-se ao pé dela


Rita e Marta (aka Gema e Clara) expressam o seu profundo agradecimento ao chat do gmail, que lhes permite fazer a boa pesquisa de que necessitam para o exercício das suas actividades.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

E se a literatura salvar jornais?

Quero contar-lhe uma história. Dou-lhe dois inícios à escolha.

1. Ontem, um prédio na Avenida da Liberdade incendiou-se às 15 e 45, devido a uma fuga de gás.

2. Dar cinco passos, parar, tocar e deixar as cartas. Parecia um dia igual a tantos outros. José Santos, carteiro há mais de 20 anos na Avenida da Liberdade, deu os cinco passos de uma porta à outra, parou, mas não tocou. Cheiro de fumo.

Se escolheu a segunda hipótese, sente-se e beba um copo. Apresento-lhe o Jornalismo Literário.


Par ou Ímpar do JL nº1008, ler mais aqui.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Cumplicidade

O silêncio durava desde que tínhamos passado a ponte. Era cortado apenas pelo barulho do carro, a música e os meus sussurros cantados acompanhando algumas notas. Aquele percurso, desde a avenida do Cristo Rei, onde jantámos com a Vera, foi embalo para uma outra viagem, por dentro, andando para trás nos anos. A inspiração veio das fotografias que vimos, imagens que trazem com elas tantas histórias.

Aquele primeiro ano de faculdade, tão magras, mas tão mais feias. As peles brancas do Inverno, ainda pintalgadas com réstias de acne adolescente. As roupas lembrando tenebrosamente os anos 90. Aquele Avante em que a Gema decidiu esticar o cabelo. Aquele Carnaval em que eu descobri o blush.

Passámos pelos clássicos, como 'A foto', em que eu, a Vera, um pedacinho da Mafas e outro da Lilas estamos perdidas por entre luz estoirada e gelado de nata (ou seria baunilha?). Ou ainda o vídeo em Leiria, em que fizemos uma "reportagem" sobre 'o morto', um homem deitado no meio da rua em pleno dia de sol (nem uma pestana do 'morto' tremelicou com a nossa gritaria).

Lembram-se das férias no Pedrogão? Lembram-se dos inúmeros jantares na mesa da Gema, onde cabia sempre mais um? E as garrafas. As incontáveis garrafas que se viam em cima das mesas ou nas nossas mãos. Não nos lembrávamos de como bebíamos quando bebíamos! E ainda conseguíamos estudar, fazer trabalhos de que ainda hoje nos orgulhamos, escrever para o 8ª Colina, filmar para o E2, dançar no gabinete do Pedro Azevedo em dias de electricidade estática (ou chorar, com a porta fechada, quando foi preciso), cantar em toda a parte, conversar e rir, rir, rir.

Tantas fotografias tiradas na faculdade, a fazer as coisas mais estranhas. Algumas não poderão nunca ser reveladas, nem sequer aqui descritas. "Como é que as pessoas haviam de gostar de nós?" - foi o comentário que mais vezes fizemos esta noite. A verdade é que conseguíamos ser incómodas, de tão gozonas. Mas nós adorávamo-nos e isso era tudo o que importava. Isso e o carinho de quem nos era querido.

Essas imagens juntaram-se, como frames, e surgiram feitas filme nas nossas cabeças, na viagem entre margens. Só quando estávamos quase a chegar ao primeiro destino, ali na curva das Amoreiras em direcção ao Rato, o silêncio foi quebrado. Com o olhar ainda fixo num ponto qualquer da rua, a Gema, como se suspirasse:

- Estou nostálgica.
- Eu também, respondi. Vivemos anos tão felizes. Quando é que as coisas ficaram tão difíceis?
- Nós antes também achávamos as coisas complicadas.
- Talvez, mas era diferente. Não ter namorado, por exemplo. Não nos preocupava muito. Não tínhamos pessoas à volta a casar, a ter filhos, não pensávamos na idade a avançar...
- Sim, isso é verdade. Mas acho que faríamos as mesmas coisas.

Respondi que não, que a maturidade não nos permitiria fazer certas coisas. Agora que penso melhor nisso, sei que, no essencial, faríamos precisamente o mesmo hoje, se estivéssemos todos juntos em volta de uma mesa. Viu-se no jantar na avenida do Cristo Rei (na casa que a Vera agora já tem com o Rui). Nem sequer acabámos a garrafa de vinho, mas as gargalhadas, o gozo, o brilho no olhar - iguais. Com uma grande diferença. Depois de quase 7 anos (sim, já 7!), maior, muito maior, é a cumplicidade.

Já não saberia viver sem isso.


Para as Elas e os Elos, meus cúmplices.