quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Queria sofrer de amor. Pôr musicas tristes a tocar e chorar, chorar...

Para quê cansar a caneta quando alguém já o fez? E tão bem.
Fiquem com Miguel Esteves Cardoso e o seu "Elogio do amor".


“Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e
da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”

MEC

terça-feira, 22 de setembro de 2009

in



- Não compreendo a vingança - disse ele -, nunca a senti. E não escrevo sobre ela.

- E Emma Zunz?
- Sim, mas é o único caso. Mas a história foi-me dada e eu nem acho que seja muito boa.

- Então, não aprova a vingança por algo que tenha sido feito contra si?
- A vingança não altera o que foi feito. Nem o perdão. Vingança e perdão são irrelevantes.
- Que se pode fazer, então?
- Esquecer - disse Borges -, isso é tudo quanto se pode fazer. Quando me fazem mal, finjo que aconteceu há muito tempo e a outra pessoa qualquer.
- E funciona?
- Mais ou menos - mostrou os seus dentes amarelos -, mais para menos do que para mais.



Eu sabia que havia uma razão para ignorar o sentimento de expectativa defraudada e não desistir deste livro. O remate da viagem está a ser todo muito bom (guardou o melhor para o fim, não foi, senhor Theroux?), mas só esta passagem já valeria a pena a persistência.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Luz ao fundo de mim

Foto de Warren du Preez & Nick Thornton-Jones


Quando alguém te diz "escreves bem, de certeza" sem nunca ter lido nada teu, sabes que tens qualquer coisa em ti.

Pode não ser único, extraordinário, impressionante, mas assegura-te de que não és uma pessoa baça, lisa, vazia. Sabes que, num dia bom, debaixo da luz certa, brilhas.

Brilhas.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Who the fuck is David Motta?

Ele chegou vestido de preto (um olhar mais atento apercebe-se de que a roupa é invulgar) e chinelos. Disse: "já venho maquilhado. Só preciso é de calçar os sapatos e de me arranjar". Sorriso aberto, um tom de voz educado - cumprimentou quem com ele se cruzou e não olhou ninguém de alto a baixo. Sentou-se no sofá da sala de produção, disse "o meu cabelo deve estar terrível", calçou uns sapatos de mulher, pretos e de vertiginoso salto agulha. Concentrado em si, calçou as burlescas luvas pretas rendadas e colocou, um por um, escolhidos, e bem a propósito, a dedo, vários anéis. Bastava olhar de relance - o brilho mostrava que não eram bijuteria plástica.

Chegaram os outros, estes já todos compostos. Filipe, rapaz moreno e alto, bonito, apesar do ar ainda adolescente (ou talvez por isso mesmo) vinha de calças amarelas e a mesma simpatia e educação. Coco, portuguesa e irlandesa, de vestido preto, curto a deixar ver as pernas de quem foi modelo, enfeitado a disfarçar a barriga de quem já não é. Ela sim, adolescente, com brilho nos olhos, sorrisos despropositados, o cabelo muito longo e muito loiro, sempre despenteado. Havia mais: a menina morena de cabelo inclinado para um dos lados, com duas cruzes de tape preta sobre os mamilos, muitos colares de pérolas e um casaquinho preto que tirou só quando estava fora do ar ("se a minha mãe me visse assim"); um rapaz muito magro e alto, de fato prateado, tão parecido àquele das paredes ("mas o Marco Horácio compra os dele em Londres; nós compramos nos chineses") e uma máscara que, descobre-se mais tarde, esconde uma cara bonita; perucas, óculos grandes e extravagantes, um leque de penas que estive quase a levar para casa, saltos altos em pés de homem.

Entraram no estúdio, sentaram-se no sofá branco e falaram. Do grupo que criaram e a quem chamaram MAD Subculture. Das festas loucas que organizam. Das festas mil vezes mais loucas a que vão em Londres, Nova Iorque, etc. Do merchandising que criaram para o grupo. Fala o David de um estilista português que ninguém conhece. Fala o Filipe do prémio que ganhou, do mestrado que quer tirar. Fala a Coco, misturando inglês e português, do castigo que os pais lhe impuseram - ficar com eles na Madeira - e apela a que a deixem voltar para Lisboa. Desvendam que querem animar Lisboa, incentivar as pessoas a vestir roupas loucas, criar uma subcultura inspirada no exagero, na extravagância.

Em volta, percorrendo o estúdio, ouve-se: "olha-me aquele paneleiro; olha-me a gaja que não tem cuecas de certeza; olha-me aquele atrasado mental de saltos altos". Como ouve David Motta de cada vez que sai à rua vestido de forma extravagante - normalmente com coisas como usam as estrelas que tanto admiramos "lá fora". E eu (e, felizmente, não só eu), a espumar de raiva com tanta mente fechada, com tanto pensamento parado no século XIV, com tanta pedra em vez de cérebro.



Os miúdos organizam festas, criam blogues, criam roupa - fútil, dizem. Pergunto: e vocês, aí sentados, vocês gritam 'paneleiro' a qualquer cor mais viva, criam o quê? Raízes no sofá? Quantos miúdos daquela idade, agarrados ao Hi5 e à playstation, fazem coisas saídas das suas cabeças, sejam elas o que forem?

Pensamos no Andy Warhol na sua Factory e quantas vezes ele ouviu "olha-me este panisgas a pintar e filmar merdas que não interessam a ninguém! vai mas é trabalhar!". Mas a verdade é que são estas pessoas que ficam na memória - as pessoas diferentes. Ainda vivemos num mundinho cinzento ou, para ser mais exacta, num país cinzento, em que se quer que toda a gente vista de jeans, que as meninas só se ponham em cima de saltos em ocasiões especiais, que se seja heterossexual, que se tenha um trabalho normal, que toda a gente se case e tenha filhos, que só se saia à noite até uma certa idade - principalmente, que não se dê nas vistas.

Eu chamar-lhe-ia mente fechada.

Perguntaram aos "burrinhos, fúteis, maricas" David, ao Filipe e à Coco: "como é que uma pessoa tem de se vestir para ir a uma festa vossa? por exemplo, a Dona Helena podia entrar?" [para quem não sabe, a Dona Helena é uma senhora da limpeza, já entradota, que anda de bata verde]. Ao que eles responderam: "porque não? o que nós defendemos é que cada pessoa vista o que quer, calce o que quer, seja como quer".

http://www.madsubculture.com/
http://escarradordedavidmotta.blogspot.com/

domingo, 23 de agosto de 2009

Let it die



...and get out of my mind
We don't see eye to eye
Or hear ear to ear

Don't you wish that we could forget that kiss ?
And see this for what it is
That we're not in love

The saddest part of a broken heart
Isn't the ending so much as the start

It was hard to tell just how I felt
To not recognize myself
I started to fade away

And after all it won't take long to fall in love
Now I know what I don't want
I learned that with you

The saddest part of a broken heart
Isn't the ending so much as the start
The tragedy starts from the very first spark
Losing your mind for the sake of your heart
The saddest part of a broken heart
Isn't the ending so much as the start

sábado, 1 de agosto de 2009

25 anos e 4 livros

1. "I am alone in the dark, turning the world around in my head as I struggle through another bout of insomnia"

Foi mais uma noite em que mal dormi. Mas daquela vez não me importei. Estava a começar o dia do meu aniversário e não era o cansaço que me impediria de festejar, com a família, os amigos, os novos e tão simpáticos colegas e comigo mesma, afinal quem faz anos sou eu. Andei zonza o dia todo, mas sorri sempre e disse obrigada a quem me beijava e abraçava. À noite, recebi todos em casa de braços abertos, risos e saltos altos.


2. "Eu, Mwanito, o afinador de silêncios"

Contudo, eu, Marta, não gosto especialmente de silêncios. Festa de anos é barulhenta, com barulho de conversar, de rir, de cantar, de chorar de bebé. É assim desde sempre. Gosto dos Parabéns cantados muito afinados, como só os Lopes sabem fazer, e das palmas e dos gritos, todos afinados numa melodia complexa, inesperada, de notas surpreendentes. Parece uma confusão a quem não está habituado, mas as minhas festas não são confusas: são exactamente no tom ideal.


3. "Era um abutre que me bicava os pés. Tinha já rasgado as botas e as meias e agora bicava os próprios pés."

Tentei ignorar que eram 25 anos e que a minha prima, quando o ano passado completou a mesma idade, ouviu da nossa querida prima Sara (que já leva mais um Lopes na barriga!!): "25! Foi com essa idade que casei!" A Sara prometeu que não me diria o mesmo e cumpriu. Mas, caramba, que é difícil não pensar que é um quarto de século e que não tenho nada que possa chamar meu (além da minha pequena biblioteca e da minha pequena discoteca, my precious). Casamento? Continua a ser um sonho longínquo, como há 10 anos atrás. Tentei ignorar e lembrar-me de todos os que, na noite anterior, no estúdio do 5 para a meia noite me disseram: "só 25? Quem me dera..." Mas o sacana do abutre do tempo a morder os pés, a bicar, a bicar.

E pensei inevitavelmente naqueles que não me deram os parabéns. Não sejamos hipócritas: todos fazemos uma lista mental de nomes que vamos riscando ao longo do dia. No fim, se tudo correr bem, ficam apenas dois ou três na folha inventada na cabeça. Mandamo-los para o sotão do cérebro, aquele sítio escuro e sujo onde entramos o mínimo possível. Mas sabemos que, entre más memórias, gente que passou veloz e teias de aranhas, eles estão lá: aquelas pessoas que gostávamos que se tivessem lembrado, mas não se lembraram. Nem no dia seguinte, nem passados dois dias.

No entanto, chegando ao fim, o que conta é só isto (e isto):



Saber que consegui juntar-nos a todos (apêndices incluídos. Só faltou o Berton!). Estes sorrisos que não estavam juntos na mesma fotografia há tantos meses. Estas carruagens (e as outras, as de sangue e amor, a querida e SEMPRE presente família), todas tão diferentes, mas que se ligam num comboio único.

4. "Esse comboio era um pedaço de vida no meio de toda a terra moribunda"



1. Man in the Dark, Paul Auster
2. Contos, Franz Kafka

3. Jesusalém, Mia Couto
4. O Velho Expresso da Patagónia, Paul Theroux


* Todos estes livros vieram parar-me às mãos em forma de presentes. Obrigada.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Turn-offs

Ontem, entre sushi, chegou-se a conclusões.

1. "Perde-se um bocado o interesse num homem quando se sabe que ele já se enrolou com meio mundo. Sentimo-nos só mais uma."

2. "Ele bem pode convidar-me, mas não vai ter sorte nenhuma. Dá muitos erros ortográficos no messenger."


Tirem notas, senhores.

domingo, 19 de julho de 2009

Wuthering Heights



(Tu. Saberás já que és tu na próxima frase. Um dias destes perguntaste-me se alguma vez iria escrever uma coisa boa sobre ti no blog. A resposta continua a mesma: não sei. É uma resposta frustrante, mas é a verdadeira. E a verdade é sempre melhor. Só sei que não será hoje que vou escrever uma coisa boa sobre ti.)

É uma história de um homem que cometeu um erro e de uma mulher fraca (sensível? romântica?). He had a temper like her jealousy: too hard, too greedy. Os sonhos avisaram-na que ela "was going to lose the fight".

Esta não é a minha história. É só a história que canta a Kate Bush. As insónias que me assaltaram na semana que passou não deixaram que sonhos nenhuns me avisassem de coisa alguma. Além disso, ela diz que corre para ele e eu, pelo contrário, quero (tenho de) correr para longe. Ela pede-lhe para entrar pela janela e eu recuso-me a isso: não me ficarei por menos de uma porta. Ela está "cold", eu tive hoje uma tarde quente de praia e ontem o casamento de uma amiga - os pés na areia e os sorrisos de orelha a orelha nas caras da Maria e do Francisco revitalizaram-me mais do que qualquer noite bem dormida.

Foi hoje, de olhos semi-cerrados à conta do sol, que comecei a ler um novo livro. Descobri recentemente que a Emily Brontë nasceu no mesmo dia e mesmo mês que eu. Como se aproxima rapidamente esse dia, sabia que O Monte dos Vendavais, que conta o amor de Cathy e Heathcliff, era a escolha óbvia para "próxima leitura". O nome original é Wuthering Heights.

Veremos como se desenrola esta história.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Já, Pina Bausch?


Café Müller foi a única coreografia sua que Pina Bausch interpretou.


A dança tem estado doente nestes dias. Pina Bausch tinha 68 anos e morreu hoje de manhã no hospital. A dança dela era "a interpretação da alma".

Mais aqui.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O rei não morreu




Ficará na música e nos vídeos. Ignore-se o ar inumano, próprio de um lunático. Verdade seja dita, esta dança também não pode ser humana. O meu lado artístico (musical, bailarino, performer) chora. Isto que se vê neste vídeo, este som, estes movimentos, são arte.

Estava com as minhas amigas bailarinas quando soube. Curioso como a vida às vezes parece pensada ao pormenor.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Livre



Lembrava-me sempre de ti quando ouvia esta música. Tu, todo vestido de preto, eu, sempre de branco, mas entendíamos-nos, ou não nos entendíamos mas gostávamos disso, das perguntas e respostas, o desafio de tentarmos perceber-nos. E eu queria ser tua namorada, mas tu não querias ser meu namorado. Convidavas-me para tudo, tomávamos café, bebíamos cerveja, apresentaste-me a tua casa (mesmo perto da minha, que boa descoberta), o teu cão (um cão-de-água preto, lindo), conhecia a voz da tua mãe ao telefone e ela sabia o meu nome. E nunca quiseste ser meu namorado. Já querias proteger-me naquela altura? Fui eu que quis conhecer-te, lembras-te? Naquela escola de barracões de madeira e ambiente leve, leve, todos nós amigos. Gostava do teu ar soturno, do teu andar calmo, de como enrolavas os cigarros, do sorriso irónico que consegui arrancar algumas vezes à tua cara triste.
Eu gostava mais deste álbum, porque era mais melodioso. Tu preferias outro, não me lembro bem qual, o Eternity ou o Silent Enigma, mais pesado. Não sei. Os Anathema (única banda metal de que alguma vez gostei) uniam-nos. Uma vez deste-me uma fotografia (ainda lá está, numa caixa de metal)e escreveste por trás : "para quê viver, se amanhã morrerei?" Eu fiquei zangada, queria era uma dedicatória (para a Marta, gosto de ti, assim qualquer coisa). Mas tu escreveste aquilo, negro como o teu cabelo comprido.
Depois as nossas vidas seguiram rumos diferentes. Eu soube de ti algumas vezes, mota, namorada louca, hospital, psiquiatra. Já não estavas na minha vida, fazias parte apenas da minha memória. Um dia, foi a minha mãe que me ligou,

- Marta, lembras-te daquele rapaz, o D.?

E eu soube logo o que ela me ia dizer. Só precisava de saber como.

- Foi na ponte. Atirou-se.

Assim mesmo: atirou-se. A minha surpresa foi nenhuma. As memórias assomaram todas de repente, a roupa preta, tu no meu sofá, eu a fazer festas ao teu cão, as imperiais, os cafés, os cigarros que fumavas, o fumo teu que eu fumava, os meus 16 anos vestida de branco (sempre de branco e rosa), o pentagrama que queimaste na perna (disseste-me, nunca o vi), os Anathema, aquela música, "i want you to be free of all the pain", e tu agora finalmente livre da dor. Chorei.
Não pude ir ao funeral que te fizeram, depois de finalmente te encontrarem (pensei nos teus pais, na tua irmã, no teu cão). Ainda bem. Tu naquela altura existias ainda vivo na minha memória. Como hoje, na minha memória. Lembro-me de ti vivo sempre, sempre!, que oiço aquela música. E noutras alturas aleatórias, como hoje de manhã.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

É música. É amor perfeito.


Uma mulher nua, estão a ver? Alguns devem mesmo estar a ver, literalmente, (seja real ou toda de plástico, encontrada nesses meandros da internet), outros não têm bem a certeza do que isso é e outros não se lembram. Os homens, claro. As mulheres vêem todos os dias e às vezes não queriam nada.
Mas voltando ao que importa - uma mulher nua. Curvilínea, cintura fina e anca larga, mulher à séria, como as de antigamente. Abandonada, encosta a cabeça no ombro do homem que a segura, a respiração dela no pescoço dele, numa postura de confiança total. O encaixe é delicado mas firme, os dois corpos só podiam pertencer ali, um ao outro. O homem olha-a apenas muito raramente, porque não precisa de mais. Conhece-lhe o jeitinho mimado, sabe que mão posta um milímetro para lá do sítio exacto fá-la reagir agressivamente, desafinada de tão ferida. Mas ele não teme. As pontas dos dedos percorrem um caminho perfeito, sabido de cor, que, no entanto, parece repleto de surpresas, de mudanças súbitas, de novas escolhas.
Ela reage a cada toque, mesmo ao mais subtil. Geme de voz fina e suplicante, respira forte de voz quente e baixa. Ele varia com ela - ora sorri levemente com cara de Primavera, ora franze as sobrancelhas numa expressão dorida; ora a trata com movimentos bruscos de quem quer mostrar controlo, ora a embala numa sintonizada dança a dois que parecem um.
É um homem e o seu violoncelo. E a música que dali sai, tão íntima, quase dá vergonha de ouvir por nos sentirmos intrusos num amor perfeito.


Recebi mais uma carta da Holanda. Desta vez vinham três cds com tesouros lá dentro e um postal. Neste, a bela cidade de Utrecht e a letra verdadeira do lindíssimo Violoncelista Holandês. Em cima "Olá, Marta!" (assim mesmo, em português); no fim "Beijos" (assim mesmo, em português). Discretamente antes da assinatura,

"love life".

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Coisa engraçada

Às vezes uma pessoa dá por si a receber conselhos inteligentes de um sítio totalmente inesperado.




Este blog qualquer dia muda de nome para "O Videoclip dentro do Armário". Embora isto não seja bem um videoclip. Mas enfim, fica uma música catita e imagens de um jovem que é uma riqueza do nosso Portugal para encher o olho às meninas. Mnham Mnham.

PS: Também aparecem umas imagens de gente estranha. Ignorem. Não sei quem fez isto.

domingo, 14 de junho de 2009

No outro dia, o destino chegou-se ao meu ouvido e disse:

"Toma lá um chapadão de todo o tamanho nessa cara bonitinha. Pensaste que era fácil? Que era só sorrir e acreditar em coisas boas e elas aconteciam? Isso querias tu. A vida não é essa facilidade toda. Então a felicidade... custa. Sua lá mais um bocadinho que não te faz mal. Mete o pé no buraco, mais um também não te faz diferença. Tropeça e cai, que uns arranhões até dão cor à tua pele anémica. Agarra-te ao estômago. Já nem sabes o que te fez mal, não é? A bebida, a comida, o soco. Mas que está aí um nó, está. Deixa lá, isso passa. Como passa sempre. Deixa lá e continua a acreditar que qualquer coisa muito boa te vai acontecer brevemente. Pode ser que aconteça mesmo. Agora limpa mas é essa cara, está cheia de terra. Vê se para a próxima olhas para o chão e não cais dessa maneira."

Chega o Chico e diz assim: "não se afobe não..."

domingo, 7 de junho de 2009

Prima, esta vai para ti

"Ni kan tiyen, sewa tiyen. Ni sewa tiyen, kantiyen."
(Provérbio Malinke)

Sem música não há alegria. Sem alegria, não há música.


sábado, 6 de junho de 2009

A tua dor é a minha

Há dias que se passam de lágrimas sempre a querer sair dos olhos, à força, como se o espaço lá dentro fosse demasiado pequeno para aquela água toda. Dias que parecem aqueles sonhos em que gritamos, mas ninguém nos ouve, em que corremos, mas não chegamos a lado nenhum, em que caímos, caímos, caímos sem aterrar. Dias sós. Só de estar numa estrada longa, de um horizonte ao outro, sem ver ninguém, sem distinguir o mínimo movimento, em que o único som é apenas o eco da nossa própria respiração angustiada. Num dia assim, como o de hoje, em que dormir parece ser a única actividade plausível, pensei que este sentimento de sufoco fosse por culpa daquela mensagem sem resposta ou daquele telefonema no vazio ou do desconforto do lar. Mas agora sinto que foi a tua dor que me chegou. Como os irmãos que se sentem à distância. Foi de certeza a tua dor que veio de longe e me chegou assim em forma de nó na garganta, para me avisar que o caminho soalheiro da vida se tinha perdido de si mesmo e embrenhado na floresta escura.

Perdoa-me a futilidade. Se eu soubesse, se eu tivesse percebido que a angústia era tua e não minha, tinha escrito antes assim: beijo com gosto de amor para a minha irmã de alma.