domingo, 30 de janeiro de 2011

Parvos que somos



Houve lágrimas nos olhos, ontem no Coliseu de Lisboa. E não foi com o "Clandestino" ou o "Passou por mim e sorriu". Foi com esta que aí está.
Ontem, assisti a um fenómeno com que nunca me tinha deparado. O público inteiro aplaudiu a letra de uma canção. A cada verso, os aplausos ressoavam cada vez com mais força. Não foi o single, não foi aquela tão animada, foi esta canção que aí está.
Os Deolinda resolveram abandonar metáforas e recursos poéticos. Nesta letra, não há segundos sentidos. E, por isso, eu também vou deixar de lado a estética da escrita para dizer o que penso.

A minha geração é, provavelmente, a mais bem qualificada de sempre em Portugal. Nós estudámos, e estudámos mesmo, para podermos ser aquilo que queremos ser. Não é capricho. É querer fazer bem feito, é não querer ir para o mercado de trabalho à toa, é querer chegar às empresas mais bem preparado. As empresas deviam agradecer isto: haver gente nova, de ideias frescas, pronta para arregaçar as mangas a trabalhar. Esta gente nova devia ser compensada e não castigada.
Esta gente nova gosta de viajar, ir para os copos e tem altas ambições. "Querem logo ser chefes, deviam saber o que é lavar escadas". Lavarei escadas se isso for necessário para alimentar filhos, mas não, não quero saber o que é lavar escadas. Porque eu gosto é de fazer outras coisas e, por isso mesmo, é que fui estudar essas outras coisas. Uma licenciatura não é uma tarefa assim tão fácil de concluir.
Quando saímos da faculdade, depois de 4 anos de aprendizagem em cima, o que nos espera são estágios "curriculares". Ora, como o próprio nome indica, um estágio CURRICULAR faz parte do currículo da faculdade e tem de ser feito em conjunto com o estabelecimento de ensino. Fazer um estágio depois de curso feito, sem que a faculdade o exija, e não ser remunerado, não é uma coisa "curricular". Como nos avisava constantemente o professor de Deontologia, trabalhar sem receber tem um nome: é escravidão. E, como dizem os Deolinda, estamos num país onde "para ser escravo é preciso estudar". Um estágio, mesmo que profissional e remunerado, é um momento de formação, é para aprender. Por isso, uma empresa que abra estágios porque precisa de mão de obra, está a agir de má fé. Muitas vezes, até exigem uma data de conhecimentos e disponibilidades. Nós, com os conhecimentos, oferecemos a nossa disponibilidade. E o pânico é tal que nem pensamos naquilo que ganhamos de volta. Uma vez vi um anúncio de uma revista online regional de um sítio qualquer por trás do sol posto a pedir "estagiários não-remunerados" (sim, já chegámos a esta falta de vergonha). E eu pensei: mas que raio vou eu aprender numa revista online regional de onde Judas perdeu as botas? O que ganho em troca? Nada.
Depois da fase dos estágios, lá conseguimos um primeiro trabalhinho pago. Pago como? A recibos verdes, obviamente. Após um primeiro ano de isenção de impostos, começamos então a saga de dar uma quantia absurda ao estado. São 160euros para a segurança social. Mesmo que só se ganhe 300euros. Como um recibo verde é um "trabalhador independente", não há cá ordenados mínimos. Nem há subsídios de férias. Nem de Natal. Nem décimo-terceiro mês. Nem baixa. Nem coisa nenhuma. E porquê toda esta falta de direitos? Porque, segundo a lei, também não temos muitos deveres.
No mundo real, isto é uma mentira bem transparente. Um recibo verde não deve ter chefes, horários, locais de trabalho. O recibo verde é para o trabalhador independente, que toma conta de si. Mas o que acontece é que estamos todos a passar recibos verdes e a responder a chefes, que nos exigem presença diária no local de trabalho e cumprimento de horários. Isto é ilegal. E estamos todos coniventes. Foi-nos dada a possibilidade de denunciar a empresa. Até nos perdoam a dívida à segurança social! Caramba, e se nós temos provas! O recibo passado com a mesma quantia para a mesma empresa há meses e meses. Os emails com a divisão de horários. Os emails com as exigências. Mas e se os denunciarmos? Contaram-me de uma rapariga que denunciou a Visão. Ganhou. A Visão pagou uma multa e a rapariga nunca mais pôs os pés na Edimpresa. Não temos proteção. Ou temos um novo emprego à nossa espera (o que, com esta taxa de desemprego, não é coisa provável) ou a única vítima de um processo legal somos nós mesmos. Quem se lixa, como toda a gente sabe, é o mexilhão.

Tenho uma amiga que trabalha na redação dum grande portal de notícias. Foi a melhor aluna da faculdade do curso de jornalismo. É a melhor jornalista que conheço. Trabalha há 4 anos a recibos verdes. Não tem tempo para ganhar dinheiro noutros lados, os seus dias (incluindo fins-de-semana) são dedicados àquele trabalho. Ela e os colegas pediram que a sua situação fosse regularizada: um contrato já seria obrigatório há muito tempo. Não lhes foi concedido o cumprimento da lei, que eles não tinham sequer de ir pedinchar. Com o novo código contributivo para a Segurança Social, foram então pedir mais 50euros para cada um (não soa a esmola?). Disseram-lhes que não, que não havia dinheiro, que até teriam de mandar gente embora. Dias depois, foram coagidos a ir à festa de Natal da empresa (que é das maiores do país). Tinham de mostrar que eram uma equipa, que também faziam parte, apesar de se sentirem outsiders. No meio da festa, ali estavam eles, sentadinhos, a ouvir o patrão dizer que o fecho de um negócio ia permitir dar um prémio de 1200euros a cada empregado. Palminhas, sorrisos, e o silêncio de centenas de pessoas. É que os recibos verdes não são empregados da empresa, por isso, nada de prémio para eles.

Tenho outra amiga que trabalha na mesma produtora há mais de três anos. Recibo verde. Ganha menos agora do que ao início. Com o fim do ano de isenção, passou a ter de tirar uma fatia para a segurança social. Depois, outra fatia para o IVA. Este, que devia ser COBRADO à empresa, é-lhe retirado do seu ordenado. Com o pânico do que aí vem de segurança social, foi pedir que revissem a sua situação (já que tinham sido feitos contratos a colegas seus). A chefe ainda teve a lata de fazer o papel de dama ofendida, ela que elogiava tanto o seu trabalho e tanto apostava nela. Ela sentadinha no seu gabinete com candeeiros de 100euros que nunca foram acesos.

Pois é, meus senhores. Elogios não pagam alugueres de casa. Temos quase 30 e queremos mesmo sair da casa dos pais. Queremos seguir a nossa vida. Queremos casar e ter filhos e perpetuar a espécie (será que vale a pena?).
Não nos venham dizer que não há dinheiro. Depois de o programa onde trabalho ter posto a RTP2 a aparecer nos gráficos de audiências, a RTP cortou o nosso orçamento em 12%. Qual é a primeira coisa que se faz? Cortar os ordenados em 12%, claro. A RTP não tem dinheiro, dizem. Não tem? E os milhares que se pagam a pessoas como o José Rodrigues dos Santos, que maior parte das vezes nem deve pode ir fazer o seu trabalho porque tem de estar a escrever remakes do Dan Brown? E o iPad que o meu professor de TV na pós-graduação, trabalhador da RTP, ia exibir para a aula? A afirmar, ainda por cima, que aquilo era revolucionário, porque as pessoas iam usá-los no autocarro. Meu senhor, as pessoas que andam de autocarro não podem comprar iPads! E a contar como a RTP organizou o encontro mundial de broadcasters todo cheio de hors d'oeuvres? Há dinheiro, sim! Normalmente não vai é para quem mais trabalha.

Aqueles aplausos no concerto fizeram-me perceber com clareza de que estamos todos fartos. Estamos mesmo fartos. Até queremos lutar. Mas lutar contra quem? Contra o governo que não fiscaliza as empresas e não protege os seus trabalhadores? E vamos deitá-lo abaixo para ir para lá um mais à direita que ainda vai fazer pior? Contra as empresas chupistas que se apoiam no pânico em que estamos para pôr a trabalhar gente em terríveis condições e ainda ter a atitude de quem está a fazer um grande favor? Contra os mercados internacionais no geral? Contra os especuladores da bolsa, que dão cabo disto tudo sem sequer lidarem com dinheiro real? Contra os nossos pais que nos fizeram acreditar que, se estudássemos muito, íamos ter uma boa vida? Lutamos contra quem?

O que andamos a fazer é a fugir. Vamos embora daqui, porque aqui ninguém nos dá valor. Muitas vezes, sabemos mais que o conjunto geriátrico que possui as empresas, mas temos de andar a lamber-lhes as botas. Fora daqui ainda há sítios onde as empresas sabem que sem trabalhadores, não funcionam. Que precisam deles. Que, para os terem, têm de lhes pagar. Que valorizam o mérito, que estão atentas e premeiam quem faz bem.

Só faria efeito se nos juntássemos todos e todos recusássemos trabalhar em certas condições. Mas isso não existe. Se eu recusar, há 20 atrás que aceitam e ainda perguntam quanto é preciso pagar. Porque estamos em pânico. Porque a luta não nos dá dinheiro com que sair da casa dos pais, com que conhecer o mundo, com que comprar livros e música e filmes.

E é por medo que vamos continuar todos aqui parados, a tentar descobrir onde podemos ir buscar mais uns euros, a pedir licença aos pais para ficar ali só mais um bocadinho, só para ver se no mês que vem ainda tenho trabalho. Vamos continuar todos aqui, precários, a ser parvos. Só à espera do próximo avião.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Amazona pó-de-arroz - ADENDA

Só não sou é suficientemente gira para lá chegar depressa. Ou suficientemente... prá frentex.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Todo o sentimento




Chico é génio.
Chico é música que muda o rumo do dia.
Chico é poesia que ensina a viver.
É livro.
É chinelo e sapato fino. É cachaça e champanhe.
Chico é coração na cabeça e mente no peito.
Chico é samba e amor, é roda viva, é construção, é cálice, não se cale nunca.
É carioca, carioca, carioca.
Chico é tanto mar.
Chico é pai.
É também mulher.
É meu caro amigo, é meu amor.
É instituição que tratamos por tu.
Chico não passa como a música não passa.
Chico é para todos.
Chico é João, é Maria, é Terezinha, é Geni, é malandro.
Chico não tem artigo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Amazona pó-de-arroz


Tinha um cartão plastificado ao pescoço que dizia: Marta Paes [sim, alguém decidiu que o meu apelido havia de ter ortografia nobre] Lopes - Guionista. Caía muito pouco delicadamente por cima do casaco grosso e do cachecol; estava muito frio nesse dia. Eu fungava, mas juro que andava toda contente. Foi um daqueles programas que jamais veria em casa, mas que me deu muito gozo fazer. Escrever. Foi a primeira vez que apareci como Guionista na ficha técnica, ao lado do P., guionista talentoso e de sucesso da televisão portuguesa, o orgulho da sua amiga. Saltitei por dentro o dia todo, com o também meu guião na mão, a dar indicações aos apresentadores. À noite, o P. chegou. Apresentei-o aos dois amorosos condutores de programa improvisados: "este é o outro guionista". Eu disse "o outro". Mas a verdade é que, a partir daí, qualquer dúvida que tinham, era ao P. que perguntavam. De repente, vi-me a precisar de impôr a minha presença. Comecei a reparar também que as pessoas me pediam água, perguntavam se podiam ter autógrafos, se podiam passar por ali. Vi-me a obrigada a responder a verdade: "não sei, isso não é comigo, tem de pedir ali". Eu não sou assistente de produção. Podia ser (ou se calhar não podia, porque me faltam qualidades necessárias, como ser organizada), mas não sou. E eu, orgulhosa do meu dístico de guionista (que não é um trabalho melhor nem pior, é só aquele que eu quero), percebi que a primeira coisa que se pensa quando se olha para uma miúda não é que ela faz trabalho intelectual.

Tenho vários problemas. Sou mulher. Tenho cara de miúda. Sou uma mulher-miúda que tem a lata de pôr baton, usar saias curtas, ter pose de elegante e ainda ler uns livros e saber pensar pela sua cabeça. As mulheres que têm cargos mais altos no meio televisivo parecem-me todas semelhantes: cara de cigarro, calças de ganga, voz grossa, dizem muitas asneiras. Estereotipando a coisa, comportam-se como homens. Sei que a consciência de muitos homens e mulheres actualmente não vê qualquer problema em que haja nomes femininos nos cargos intelectuais e nos de chefia. Mas o inconsciente... o inconsciente ainda diz que se está ali uma miúda gira, deve ser para distribuir cafés.

Este é o meu primeiro discurso feminista. Quotas para mulheres na Assembleia, votar em mulheres nos reality-shows porque são mulheres são coisas que me revoltam. Ser mulher não é uma característica de personalidade. Quero chegar lá pelo meu mérito. Têm é de me deixar. Sempre fui a favor da igualdade de direitos e deveres entre os dois sexos, mas gosto de mulheres delicadas e homens cavalheiros. Aquele movimento feminista dos anos 30 diz-me pouco: usar vestidos que não mostram as curvas não é a defesa da mulher; é a defesa de que uma mulher pode ser como um homem. Eu não quero ser como um homem. Quero ser como uma mulher, sabendo que posso ser vaidosa e inteligente ao mesmo tempo. Não vou vestir calças de ganga, fumar e dizer asneiras para lá chegar. Agora, todos os dias, olho-me ao espelho e sei que não há gestos inocentes. Pinto os lábios, ponho rímel nos olhos e um livro debaixo do braço. Esse é o meu grito de guerra.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O frio não é tão frio assim

Estiveste bem esta noite. As músicas novas são de ouvir em repeat e estás a cantar cada vez melhor. Só torço um pouco o nariz quando improvisas demasiado. Sei que é difícil conter a voz que te sai no momento, mas porquê alterar as melodias que fizeste tão belas? Por outro lado, é isso que te faz parecer tão humano em cima do palco. Parecer. Lição de vida: nunca confundir o artista com a sua arte.

Não tenho saudades tuas. Tenho saudades daquele bocadinho fugaz que tivemos. Não direi, como já disse de outro, que tenho pena pelo que poderíamos ter sido, porque, sendo eu quem sou e sendo tu quem és, acho que não poderíamos ter sido.

Há razões para gostar do Inverno. É que, no frio de uma avenida lisboeta percorrida a pé à noite, a melancolia chega mesmo a ser bonita.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Intervalo




Em televisão, existe para cumprir compromissos publicitários e assim pagar os ordenados a toda a gente. É sabido que são os programas que servem os anúncios e não vice-versa (se alguém não sabia, surpresa!). Mas não é só isso. Os intervalos são úteis também para respirar fundo, desanuviar, esticar as pernas, rodar o pescoço e até pensar naquilo que se viu.

Parar.




É assim connosco. Não falo de inércia. Parar não é "ficar parado", aquilo de que falava o Sérgio Godinho quando dizia que preferia o poço da morte a tal sorte. É que por vezes a sensação é a de que fazemos tanta coisa que o cérebro se torna inactivo. Ou, nova tentativa, agora é que me vou fazer entender, a cabeça perde-se em ideias, em textos, em papéis, em horários, em amigos, em amores e esquece-se de nós. Da vida. Daí a necessidade de intervalo. É preciso parar para pensar. Deixar cair a névoa de tralha que nos tolda e descobrir o real. Como diz o povo, que sempre soube explicar-se melhor que os poetas, olhar com olhos de ver.
Deparei-me com um intervalo no meu trabalho. Mais uma vez, dois meses e tal sem rotina, sem obrigações e tanta coisa para fazer.
Coincidentemente, um intervalo amoroso. Nem estou apaixonada nem ninguém anda a tentar que eu fique; não quero recuperar paixões antigas ou reutilizá-las (ecológico, mas tão pouco saudável); não me perco em domingos deprimidos nem em noites devassas.
Tem sido um intervalo aqui no Ovo, eu sei. É que só sei escrever sobre o que sinto e o que sinto tem sido profundo demais para um espaço tão público.
É um intervalo de mim também. Estou quase a matar a depressão em que me vi presa. O horizonte que vejo agora não é escuro nem claro: é o verdadeiro, é aquele que lá está. E é cada dia mais nítido.

O melhor do intervalo é que depois vem a segunda parte. E essa é aquela dos momentos mais emocionantes, das aventuras mais perigosas, do "agora é que é" e, claro, do final feliz. É aqui que me afasto da televisão. É que não é para aí que caminha a minha segunda parte. O meu "the end" é antes um começo feliz. E depois? Depois, cá estarei para contar a história.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Fool me once, shame on you. Fool me twice, shame on me.

Quarto de casal. Sentada na cama, Clara vasculha a caixa de jóias da Mãe. Mãe está de pé e vai observando as escolhas da filha.

CLARA: Gosto deste solitário.

MÃE: Então leva esse.

CLARA: É melhor não. Depois parece que estou noiva.

MÃE: Então, isso é bom!

CLARA: Não, Mãe. Não posso andar por aí com ar de comprometida.

MÃE: Ai filha, que medo que tens de não encontrares ninguém. Vai ser agora no curso, quando voltares à faculdade.

CLARA (com olhar irónico): Um artista, um maluquinho do cinema?

Pausa dramática.

MÃE (com expressão desesperançada): Ah... Pois...


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Avaliação de um pretendente assim, por exemplo.



Podia ser:

- Cães ou gatos?
- Ateu ou crente?
- Benfica ou Sporting?
- Livros ou desporto?
- Cinema europeu ou Hollywood?
- Preto ou branco?
- Bife ou soja?
- Domingo na rua ou em casa?


Mas talvez baste pegar nele, levá-lo à exposição dos brasileiros OsGêmeos no Museu Berardo e mandá-lo espreitar para dentro da caixa com óculos-lupa que lá se encontra. Se, ao ver o que está lá dentro, sorrir, vale a pena dar-lhe atenção: é porque tem qualquer coisa de optimista, de inocente, de genuíno, sem a qual o amor não acontece.

Quem ainda não foi ver "Pra quem mora lá, o céu é lá", ainda têm uma semana. Uma experiência que tem só um preço: fazer pensar.

domingo, 5 de setembro de 2010

The Marc Pease (scary) Experience ou Porque vale a pena olhar duas vezes para o bilhete de cinema

Cá vai disto.

Sexta-feira foi noite de ir ao cinema com a Ana, amiga que a Gema me deixou em herança. Decidimos ver The Box, um filme com a Cameron Diaz que não é uma comédia romântica (já aguça a curiosidade, não é?). Tive o cuidado de olhar para o cartaz e dizer o nome em português, a tradução literal "Presente de Morte", "dois bilhetes para..., um com Medeia Card".
Entrámos, a tempo de ver alguns trailers e, em surdina, fomos comentando outros filmes que estavam em cartaz. Um deles, tinha a actriz Anna Kendrick, que fez um trabalho brilhante no não menos brilhante filme Up in the Air. Comentei:
- "Aquilo deve ser uma comédia qualquer, é com o parvo do Adam Sandler. Deve ser muito mau."
De repente, começa o filme. Aparece Jason Schwartzman e, logo a seguir, Adam Sandler. "Não, este é o Ben Stiller", diz a Ana. Pronto, o Ben Stiller. Para mim, são uma e a mesma pessoa. Começamos por rir nervosamente. "Então mas este também entra aqui. Ah ah ah... nós a dizermos mal... ah ah ah". O riso pára quando eu decido olhar para o bilhete e leio "A Vida Desafinada". Pânico! Raiva! Então não é que a FDP da mulher da bilheteira nos deus bilhetes para aquilo?? Enganada, que eu tenho a certeza de que disse "Presente de Morte", uma pessoa não esquece que disse "Presente de Morte".
Como a hora já não permitia ir trocar o bilhete nem ver outro filme, respirámos fundo e pensámos que o filme seria assim uma espécie de despedida do Verão e do seu cinema tonto. Podia ser que ainda desse para rir um bocadinho com a comédia e chorar um bocadinho com a romântica.
Mas aquilo nem era comédia, nem era romântica, tinha música mas não era um musical. Posso dizer-vos muitas coisas que o filme não é, mas não consigo descobrir o que é. A Ana adormeceu. Eu nem consegui, de tão atónita.
A Anna Kendrick a fazer de miúda de 18 anos, numa escola secundária que vive para o dia em que põe em cena um musical inspirado no Feiticeiro de Oz. O Jason Schwartzman com um cabelo indiscritível. O Ben Stiller a fazer de Tom Cruise, tendo em conta os gestos, as expressões e o corte de cabelo. E todos eles, mais os personagens secundários, pareciam atrasados mentais. Um filme de gente retardada para gente retardada. Eu ainda tenho a sensação de que aquilo é cinema de beneficiência, organizado pela CERCI de Los Angeles, e que os bilhetes revertem a favor dos actores considerados cidadãos inadaptados. Por uma questão de altruísmo, as senhoras da bilheteiras têm ordens para dar bilhetes daquilo às pessoas, como se fosse por engano.
Só pode ter sido por bondade que a Kendrick, depois de nomeação para Óscar e tudo, e o excelente Schwartzman aceitaram fazer um filme em que o Ben Stiller canta e em que um grupinho tipo Tetvocal faz um medley que temos de ver... na íntegra.
E quando se pensa que há ali um conflito e que a personagem vai finalmente revoltar-se e dar porrada nos maus e reconciliar-se com a garota ao pôr do sol, o filme acaba. Nem ele faz chantagem com o mau, apesar de ter provas de que este andou a mexer com a miúda dele, nem acaba aos beijinhos com ela. Acaba ao piano... a cantar.
Quando derem por vocês a pensar "aaah, não tenho nada para fazer, vou ver aquele em que o Adam Sandler, ai, não, o Ben Stiller canta e não sei quê", pensem melhor. De certeza que têm alguma coisa mais interessante para fazer. Tipo contar manchas de bolor no tecto. Ou olhar para uma parede branca. Ou ler no IMDB a filmografia do Adam Sandler.



PS.: Há aqui coisas que parecem ter uma ligeira piada, mas é só porque estão retiradas do seu contexto. Não se enganem.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Porque o melhor escritor da nova geração da literatura portuguesa merece

Hoje vou dar uma de Pipoca e responder a um comentário que surgiu ao meu post anterior, sobre o novo livro do João Tordo, "O Bom Inverno".

O comentário:

"Só posso dizer que se for tão bom como as 3 vidas (sobre os 2 primeiros nada posso dizer) é um desperdício de papel. Em literatura portuguesa contemporânea, não me lembro de coisa mais delirante e descabelada (conseguindo, no entanto, ser exasperantemente monótona), mais privada de qualquer sentido de humor ou de ironia... Nenhum detalhe nos poupa o JT (que devia chamar-se antes joão pardo), o suposto delfim do josé saramago. A elipse não existe para ele, e assim, um conto ou uma novela medíocres incharam até ás 300 páginas. Como vai nu esse rei (mas como a rainha-mãe e o ex dela são quem são, e portugal é o que é, não hão-de faltar os arautos a proclamá-lo - outra vez - um génio...). Não perca tempo com o JT, que a vida é curta, mesmo para jovens como você e a sua colega, e o que não falta são grandes livros..."

Caro Anónimo:
Como diria Jack, o Estripador: vamos por partes.
Primeiro, estou a contar que "O Bom Inverno" seja tão bom ou melhor do que "As Três Vidas". Mau acho muito difícil que seja, já que, pelo que tem mostrado, o João Tordo não tem a capacidade de escrever maus livros. Tenho a certeza de que não será um desperdício de papel - pode apaziguar as suas preocupações ambientais.
Segundo, isso de o romance não ter sentido de humor ou ironia não me parece sinónimo de coisa má. Que eu saiba, há muito boa literatura que é desprovida dessas duas características (que o João Tordo, aliás, pessoalmente, tem a rodos). Tanto o humor como a ironia são coisas muito portuguesas e não se encontram frequentemente na literatura anglo-saxónica, inspiração assumida do João. Os escritores não têm de ser todos Eças ou Saramagos para serem bons. O que nos leva ao próximo ponto.
Não sei bem o que significa ser o "delfim do Saramago", mas penso que se refira ao prémio que o João Tordo ganhou este ano (muito justamente, a meu ver). O nome do prémio não significa que o vencedor do mesmo seja um protegido do José Saramago. Este, aliás, até onde me lembro, nem faz parte do júri. O próprio João Tordo afirma que o Saramago não deve gostar especialmente dos seus livros, inspirados na tradição inglesa e americana no que toca à maneira de contar histórias (ou seja, o mais importante é a história e é esta que prevalece, mais que as figuras de estilo, o simbolismo ou a estética da escrita - e isto não é pior ou melhor, é diferente).
Quanto à forma como uso o meu tempo, agradeço a sua preocupação. No entanto, conto-lhe um segredo (e que é o mais importante desta história toda): a literatura não é ciência, é arte. E a arte, podendo ser objecto de avaliação e crítica, assenta no impacto que causa em quem a aprecia. Essa é, do meu ponto de vista, a avaliação fundamental e última: ou emociona ou não. Posso até achar que certos autores escrevem muito bem, mas os seus livros não me dizerem nada e não conseguir passar da primeira página. Quanto ao João Tordo, calha que ele escreve muitíssimo bem e os seus livros agarram-me, da primeira à última palavra.
Não me esqueci da sua referência tão portuguesa em relação aos progenitores do João Tordo, o chamado factor C. Compreendo-a perfeitamente: a mãe e o pai do João têm de facto uma influência extraordinária no mundo editorial, principalmente junto a uma editora maleável e fraquinha de espírito como a Maria do Rosário Pedreira. Dos seus pais não posso falar, já que nem me deu uma pista do seu apelido. A ironia chegou-lhe ou precisa de mais um bocadinho?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Cheiro de livro novo


Já agora, no El Corte Inglés está com 10% de desconto. E na Wook também. E na Fnac também, com cartão aderente. A utilidade do preço inicial é uma incógnita. Como ainda não li, por enquanto são estas as considerações que tenho a fazer sobre o livro.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

De Portimão a Lisboa são... 6 horas de distância?



Desci as escadas e senti a noite de Verão transformar-se. O vento que me levantou os cabelos já não era morno, mas fresco, capaz de eriçar os meus pêlos dourados pelo sol. Olhei em volta: uma estação de serviço, igual a tantas outras, numa zona de planície. Nenhum outro veículo estava estacionado ali próximo; o autocarro de onde tinha acabado de sair parecia um erro de cenografia, ali no meio de nada. Peguei na minha mala, afastei-me uns passos e pousei-a junto aos meus pés. Perguntei a alguém que passava: "Onde estamos?". A resposta: "Em Grândola".


Eu pensei que este fim de semana fosse mudar a minha vida. Não dessa forma tipo livro de auto-ajuda, "como dois dias no Algarve fizeram de mim a mulher feliz que sou hoje", nada disso. Simplesmente, dormi no mesmo quarto que um bebé e uma criança pequena, o que implicou acordar ali por volta das 7 da manhã e levantar às 8, para acompanhar os pais dos petizes no pequeno-almoço. Eram 23h de sábado e eu já estava a cair de sono (coisa que não acontecia desde 1994, sensivelmente). Pensei, "bom, vou aproveitar este novo ritmo, domingo deito-me cedinho, segunda levanto-me cedinho e posso tomar o pequeno-almoço sentada, comer fruta, ir comprar o jornal, fazer a cama como deve ser e essas coisas de mulher ajuizada".

Ora, do pensar ao fazer vai uma grande distância, principalmente quando o universo se interpõe entre nós e a nossa vontade. O expresso já saiu de Portimão dez minutos atrasado. Não ignorei o mau augúrio, mas não havia nada que pudesse fazer. A meio do caminho, o autocarro seguiu uns poucos quilómetros por entre a escuridão meio fora meio dentro da faixa de rodagem. Imaginei um motorista a adormecer e a viatura a resvalar pela encosta abaixo e os passageiros todos perdidos no meio da selva alentejana, a caçar javalis e a carregar numa tecla de computador e sei lá mais que coisas perigosas. Devagar, lá entrámos na estação de serviço de Grândola, vila morena, terra da adversidade, e o motorista deu a triste notícia: o autocarro estava avariado. A mecânica é quem mais ordena dentro de ti, ó cidade. Depois de entrarem uns quantos passageiros nos dois últimos expressos que ali passaram, percebemos que teríamos de esperar que fosse uma nova viatura de Lisboa de propósito. "Isto ainda vai demorar pelo menos umas duas horas". Bonito.

Foram duas horas e meia de espera em Grândola, que incluíram a compra de uma empada e um pacote de Fritos e a leitura de um livro. E aqui aconteceu algo importante. O avanço no livro foi possível apenas e só devido à minha ridícula caneta com uma lanterna na ponta. É que a luz mortiça do autocarro no breu da noite não chegava para os meus olhinhos e foi aquela característica da caneta, antes desprezada e gozada, que permitiu que o tempo passasse mais depressa.

Conclusão: em vez de chegar a Lisboa às 23:30, cheguei quase às 3 da manhã. O meu deitar cedo e cedo erguer foi por água abaixo.

Moral: nunca desprezar as pequenas características diferenciadoras de um objecto quotidiano. Mais dia, menos dia, também você vai precisar daquela luzinha azul na ponta da esferográfica.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Post de Verão

Sabem aquelas cenas de filme em que moças muito jeitosas saem de uma mota, tiram o capacete graciosamente em câmara lenta e sacodem o cabelo sedoso com o sol a bater na face de lábios entreabertos?
Pois, garotada, isso não existe. É tudo efeito especial. Ou então ela usa um capacete muito largo. Quem anda de mota, sabe do que falo. Aqueles capacetes à séria, completos, não se colocam nem retiram com facilidade. Não. Eles são bem apertadinhos e deixam as bochechas esmagadas. Para tirá-los, é preciso alguma brusquidão e o cabelo vem atrás, todo cheio de electricidade. A cara fica com as marcas da tecido interior, principalmente se estiver calor.

Com isto quero dizer que essa coisa da mulher 100% sexy só existe nos filmes. E porque eles filmam várias vezes a mesma cena. E editam. E põem efeitos especiais. A pessoa normal não anda por aí a semicerrar os olhos pela rua e a fazer coisas em câmara lenta (até porque seria patético).

Aquela jovem loira e recauchutada chamada Bastet, por exemplo, disse que fazia a lida doméstica toda nua e de saltos altos. Please. São criaturas como esta que lixam a vida às outras mulheres, porque os jovens machos andam por aí a acreditar que isto existe mesmo, que é possível, que nós é que não nos esforçamos. E, verdade seja dita, fazer-se de sexy é tão pouco sexy.

Há realmente senhoras que transpiram sensualidade, naturalmente. Mas também cortam as unhas dos pés e tiram o buço, disso podem ter a certeza.

Bonito, bonito, é um homem ver sexyness em cada gesto de uma tal mulher, em cada passo quotidiano, em cada encolher de ombros corriqueiro. Mas isso, caríssimos, já é paixão.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Foi assim que me vi a perder a esperança na minha irmã (e na lixívia)

Barata na garagem. Gigante. Viva e antenada.

Onde é que falhaste, irmã? Que cano te escapou? Que dedicação te faltou? Que lixívia secou? Que barata ruim resistiu à tua arma líquida e ficou apenas com uma grande moca e uma ressaca daquelas pela manhã?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"They tell me not to go to Cité Soleil...

...but how can I be scared of people like me?" *


O músico Wyclef Jean apresentou oficialmente a sua candidatura à presidência do Haiti (notícia aqui). Para quem não sabe quase nada sobre a tentativa de país que é o Haiti, isto pode parecer estranho. Como ele próprio diz, "as pessoas vão perguntar: "Meu, o que é que ele sabe de política?". Muito pouco.
A questão aqui é que o Haiti talvez não precise de políticos agora. Provavelmente, precisa mais (e urgentemente) de uma inspiração e, se pensarmos assim, a candidatura do Wyclef Jean faz todo o sentido.

Estas ideias tornam-se lógicas, depois de ver este filme:



Ghosts of Cité Soleil é, quase certamente, o melhor documentário que já vi (atenção, apesar de documentário, é cinema. Ou seja, tem uma história construída, tem edição, não é o espelho de toda a realidade). A Cité Soleil, situada em Port-au-Prince, no Haiti, é considerada o sítio mais perigoso do mundo. Embora facilmente comparável às favelas brasileiras, põe-nas a um canto. É um país dentro de um país, dividido por zonas, cada uma delas controlada por um líder. Como sempre acontece, mesmo o mais tirano dos líderes tem o poder que o povo lhe confere (de forma mais ou menos consciente) e estes têm todo o poder, materializado em armas, droga e outros "tesouros" ilegais. É que estes gangsters são capazes de ir entregar um maço de notas a uma mulher e dizer-lhe "toma, para pores os teus filhos na escola". Já o governo, não entrega nada ao povo, pobre como não sabemos o que é ser pobre (é o país mais pobre da América, quase metade da população é analfabeta e está a recuperar de um terramoto que destruiu cerca de 80% da capital) e gasta o pouco que tem em guerra, cargas policiais e sustento de ditaduras.
A esperança reside no facto de metade dos haitianos terem menos de 26 anos. E quem é o ídolo dessa juventude? Wyclef Jean, claro, rapper interventivo, nascido no meio deles. É um deles.
Para quem ainda acha que a arte é só para quem não tem mais o que fazer, repense. Aquelas pessoas desistiram de depositar esperança nos políticos; as circunstâncias obrigaram-nas a acreditar em gangsters. A ideia de que a salvação do Haiti pode estar nas mãos de um músico, de repente, já não parece assim tão estranho. Pois não?


Veremos o que acontece daqui para a frente.


PS.: O Sean Penn diz que o W. Jean desviou dinheiro de doações. Mas o Sean Penn dá porrada nas mulheres. Não conta.

*Retirado de Ghost of Cité Soleil, canção de Wyclef Jean para a banda sonora do filme.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Um dia vou apagar as tuas mensagens.


Hoje foi o dia.

Foi assim que vi a minha irmã perder a esperança

Hoje acordei e levantei-me mais cedo do que o costume (ó dor), mas não demorei a perceber que estava mesmo acordada. Cheguei à casa de banho e deparei-me com a minha irmã ainda de pijama, com uma fita vermelha mais velha que eu a segurar o cabelo todo, a tentar abrir um frasco de lixívia de dois litros. Na bancada, estava outro, já vazio. Olhou para mim com uma expressão a roçar o pânico.

- "Eles", começou, referindo-se àquela entidade desconhecida que sabe uma data de coisas, como o tempo para amanhã, "eles estão a mandar pôr lixívia nos canos. Vai haver uma invasão de baratas em Lisboa".

Estive quase para a lembrar de que ali em Alfornelos já não é Lisboa, mas vi-a tão aflita que só consegui apontar para a sanita e dizer: "põe aqui também". Ela continuou na azáfama de abrir a lixívia, já com a ajuda de uma tesoura, e, muito concentrada, deitou o líquido no lavatório, na banheira e na sanita. Depois de trabalho pronto, parou dois segundos a olhar em silêncio. A última coisa que disse antes de partir em busca de outros canos saiu já em tom desesperado.

- "Como se isto as impedisse".

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

0º, temperatura interna

Este domingo, aconteceu o primeiro banho de mar do ano. Já tinha dado um mergulho, mas só isso: um mergulho. Até agora, a praia recebeu-me sempre com água gelada e bandeira vermelha. Mas este domingo, esperava-me um mar calmo e transparente.
Cheguei-me à beira-mar. Água muito fria. Exactamente o que eu precisava. Entrei e mergulhei.
Lá em baixo, só o corpo a ficar em pele de galinha, os músculos acordados e o silêncio.
Saí de novo para o sol e o cérebro voltou a funcionar a mil. Tudo a chegar à memória. A lembrança daquela segunda-feira de desilusão, em que me senti como naqueles empregos em que se é rejeitado por habilitações a mais. Por momentos, pensei: "e se eu fosse uma surfistinha sexy e burra?". A resposta veio rápida: "não era eu. E prefiro ser assim como sou." Complexa. Um puzzle daqueles de mil peças, que só com tempo e dedicação se resolvem. E não são os que dão mais satisfação?
Lembrei-me do "desculpa" que ouvi e da carícia que recusei. E andei para trás e lembrei-me daquele dia de carinhos escondidos, trocados por baixo da mesa, por trás do banco do carro, a tentar ocultar o que estava estampado nos nossos sorrisos. E desse sorriso, do qual não direi que iluminava salas ou o meu coração inteiro, porque esse sorriso nada tinha de cliché. E das intermináveis conversas à volta dos filmes. E dos abraços, das mãos dadas, dos beijos. E do fim de semana que talvez não devêssemos ter passado juntos. E das intermináveis conversas à volta das nossas diferenças. E da paixão que morreu rapidamente. E do tempo que afinal foi tão pouco. E das palavras doces que agora parecem mentiras.
Mergulhei de novo. Água gélida. Silêncio. A cabeça vazia. E, se pudesse, não saía de lá, desse vazio frio, até que alguém tivesse coragem para enfrentar o puzzle.