sexta-feira, 6 de março de 2009

Aqui

Se ao menos a memória do meu coração fosse tão incompetente como a da minha cabeça.

De repente, de um golpe, tudo aquilo que estava escondido lá no fundo, debaixo dos pés (e que eu acreditava que acreditava que não existia), está aqui,

à flor da pele.

5 comentários:

bipa disse...

Porque é que achamos sempre que conseguimos controlar o coração como controlamos a cabeça? É tudo um engano, na verdade não controlamos é nada...
Que chatice!

Pedro Espírito Santo disse...

Paris me manque…

O relógio boceja pausadamente as 10 horas. Paro, espero e insisto em fitar a porta, tão teimosamente imóvel… Lá fora, Lisboa demora a acordar - a noite foi longa e o fim-de-semana ainda mal começou. E aqui dentro, no refúgio francófono da capital, ressonam-se trechos de gramática. Uma voz de tédio monocórdico embala mentes resignadas que vagueiam. E tudo é bom. Tudo é pedagógico. Mas falta brilho, não há cor. Olho mais uma vez para a porta (maldita porta, que só adorna, não se abre!) e demoro-me na lembrança das incontáveis vezes que a dita se escancarou, deixando desfilar a beleza, o requinte, a graça, a vida duma parisiense exilada. Como fiel artista de Montmartre, chegava en retard, sorrateira mas nunca envergonhada. Depois assentava e esboçava um elegante sorriso de saudação. A amizade degustava-se, então, em pedaços crocantes de croissants, enquanto alegres e doces conversas se dissolviam na meia-de-leite mais clara de toda a cidade. Entre cardápios de exercícios e manuais, o seu olhar e o seu estar no mundo foram exemplo, fizeram-me crescer. Partilhei e fixei tal caminhada à beira Sena, brindando (com champagne, e do bom…) um audaz prazer em viver. Um dia, a luz de Paris foi cintilar noutras cidades. Deixou, contudo, aceso um pavio - uma esperança de novas partilhas, outros amigáveis “Bonjour”. Amanhã, o francês continua, a amizade também mas Paris me manque…

Anónimo disse...

To each his own... Quem me dera controlar a cabeça como controlo o coração: para este, basta fazer o que faço - proibir-me uma saída que seja, um copo que seja, enclausurar-me como um eremita; mas a cabeça... essa não posso fechá-la entre quatro paredes. É uma cabeça que aparenta ser sensata e contemplativa: não parece pedir mais que assistir à vida dos outros... Mas, muito de vez em quando, mostra-se: it gets cabin fever, entra em ebulição, rebela-se, passa-se, e arrasa tudo o que se lhe atravessa no caminho. E como sabe que é tarde demais, resolve que já chega. Da última vez que aconteceu, foi, como sempre, o coração que me salvou, mas por um triz: em vez da passageira loucura de um par de dias, fervi em febre (literalmente) mais de um mês. Da próxima, serei ainda mais velho, ainda mais implausível a esperança (qualquer esperança), mais ténue o apego a quem por cá esteja; e a minha cabeça ficou a saber que o velho inimigo já não tem pernas para doze assaltos...

Anónimo disse...

P.S.: outro chavão que, contrariamente ao que é costume, é falso: o de que enquanto há vida, há esperança; é o inverso que é verdade - é enquanto há esperança que há vida. E a esperança, como a vida, vai-se gastando... Mas anima-te, rapariga: és nova, tens amigos (e amigas), tens pernas (que pernas!) para dançar ainda por muito tempo - e não há-de tardar que encontres par capaz de acompanhar-te. Pois se até eu já vou sentindo no sangue a Primavera...

Clara disse...

Bonjour, cher Pedro! Que bom que apareceste chez moi. Se há coisa que me faz ter saudades das sonolentas manhãs de sábado é conversar, entre os melhores croissants de Lisboa, com uma das pessoas mais inteligentes que já conheci (e, não, não é um dos miúdos de 17 anos mais inteligentes. é mesmo uma das pessoas) e com correspondente maturidade (quem dera a pessoas tão mais velhas...). Mas sem nunca perder a leveza da adolescência. Prometo que brevemente voltaremos a conversar e a rir (e a verdade é que nunca ninguém nos conseguiu acompanhar), antes que partas para o mundo lá fora (que, ainda não sabe, mas anseia por ti). Sabes que estás destinado para grandes feitos e uma pessoa assim agarra-se com unhas e dentes. À bientôt! =)