quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O pássaro na minha janela


Já era a madrugada de hoje, mas para mim ainda era a noite de ontem. Estava na cozinha, a fazer qualquer coisa automaticamente e a cismar (actividade que tenho praticado com muita frequência nos últimos dias). Cismar no sentido pessoano do termo. Estava portanto perdida nos meus pensamentos, que são obssessivamente sempre os mesmos. Obssessão deles, não minha. E os meus pensamentos, como qualquer leitor assíduo deste Ovo pode constatar, têm sido tudo menos luminosos.

Ontem não foi diferente. Testa franzida, uma expressão entre a preocupação e a tristeza - esta era de certeza a minha imagem - e a noite dentro da cabeça. Olhei pela janela e vi o meu estado de alma reflectido: tudo escuro. Por entre estes caminhos de trevas, pareceu-me irreal ouvir um pássaro a cantar. Parei. Eu e os meus pensamentos. Estiquei o ouvido e ouvi de novo. Era mesmo um pássaro a cantar.

Noite cerrada, muito frio, chuva e vento: o cenário era o pior, mas o pássaro cantou à mesma. Lembrei-me da menina dos sapatos vermelhos que perguntava porque não podia voar por cima do arco-íris como os pássaros. Perguntei-me porque não podia eu cantar no meio de uma noite escura e fria como aquela avezinha.

Percebi que posso. O pássaro na minha janela, só com uns segundos de canto, fez-me entender: é possível cantar mesmo na noite mais escura, porque, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, chegará o amanhecer.

4 comentários:

Manitas disse...

Pode não ter chegado o amanhecer, mas podes sempre cantar, qual Judy Garland, "somewhere over the rainbow..." Estaremos por aqui para te ouvir!:)
Ah, com o tempo que estava ontem, esse passarinho já deve padecer da gripe das aves...

Francisca Cunha Rêgo disse...

«Mesmo na noite mais triste,
em tempo de servidão,
há sempre alguém que resiste.
Há sempre alguém que diz
Não.»

Versos de Manuel Alegre a que poderias acrescentar que há sempre um pássaro que canta na madrugada.
E o pássaro também podes ser tu.

Beijinhos e coisas boas

Anónimo disse...

"Deus existe, tudo o prova; tanto tu altivo Sol como tu raminho humilde em que canta o rouxinol": isto, ou mais ou menos isto, escreveu Alípio Severo (de Noronha, ou talvez não) Abranhos, o célebre Conde de Abranhos do Eça. Não era dado, homem eminentemente prático, a estados de alma, mas também ele recebia das avezinhas canoras - como recebes tu, como recebo eu (a já assídua cobra) - o raiozinho de luz que desanuvia o espírito...

CaTá disse...

Lido